Representando o maior banco privado do país, Mário Mesquita, economista-chefe do banco Itaú, reflete o pensamento e o pragmatismo do mercado financeiro. Se 95% dos brasileiros são contrários ao presidente Michel Temer, como mostram pesquisas de opinião, Mesquita, assim como os investidores de um modo geral, está nos 5% que elogiam o plano de governo de ajustar as contas dia a quem doer, e aponta erros da política fiscal no passado que estão aparecendo agora.
Para o economista, que já foi diretor do Banco Central de 2000 a 2006, mais importante que o futuro candidato à Presidência, é a equipe econômica que será escolhida. Veja alguns trechos da entrevista concedida ao El País.
“A gente exagerou no uso da política fiscal para tentar sustentar a atividade econômica. Fizemos erros que outros países não fizeram e a situação fiscal se deteriorou cada vez mais. A combinação de cortes de impostos com atividade econômica em queda, mas o fato que no Brasil, pela sucessão de programas de refinanciamento tributário que você teve, para muitas empresas é mais barato adiar o pagamento de imposto do que qualquer outro tipo de pagamento. E a taxa de juro do Brasil, em função do desequilíbrio fiscal, é elevada. Vai rondando um déficit com taxa de juros elevada, a consequência é um crescimento de 10 a 15 pontos percentuais da dívida, acelerou mais na recessão, abriu a boca do jacaré. A gente tem um arcabouço da lei de responsabilidade fiscal, desenhado para evitar que a política fiscal fosse usada ou abusada, mas não funcionou. Funcionou durante muito tempo e deixou de funcionar”.
“Não é um problema a curtíssimo prazo, porque os efeitos da reforma (Previdência) não seriam imediatos. Mas de 2019 não passa. A gente estima que cumprir a PEC do teto neste ano não é um problema, no ano que vem também não, em 2019 começa um desafio maior e em 2020 sem Previdência será inviável. O tempo está passando, a dívida pública está subindo, quanto mais a gente adia o ajuste, mais alto vai ser o nível que a dívida vai se estabilizar e começar a cair. O ajuste necessariamente é gradual, mas não pode ser exageradamente gradual ou a dívida vai continuar crescendo por muito mais tempo”.
“Acho que o Congresso tem sido muito resistente ao aumento de impostos. A alta de tributos é você tirar recursos do setor privado e transferir para o setor público. No setor público, as pessoas têm estabilidade no emprego, aumento de salário enquanto no setor privado você tem 15 milhões de desempregados e salários crescendo menos. Isso torna o ambiente muito avesso.É uma coisa que dificulta qualquer argumento a favor de tributo, sendo que fechar as contas sem nenhum aumento de imposto é difícil. Eu não sei quem vai ser o próximo presidente da República, mas tenho a impressão que a orientação ideológica do Congresso em 2019 será muito parecida com a que temos hoje em dia. O que significa que a Casa continuará avessa ao aumento de imposto. Será difícil você repetir o ajuste fiscal que a gente fez há 15 anos (tanto em Governos do PSDB como do PT) majoritariamente muito calcado no aumento dos impostos. Vale recapitular que nem o ex-presidente Lula, quando era muito popular em 2007, não conseguiu manter a CPMF. Imagina outros aumentos de impostos? É muito difícil, mas não é impossível e talvez seja necessário, porque fechar a conta está muito complicado”.
