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Crime da Candelária e um país brutal

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Naquela noite, Yvonne Bezerra de Mello teve uma premonição. “Eu dei a três garotos uma ficha telefônica para eles me ligarem, se acontecesse alguma coisa.” E aí ela se despediu do grupo de 70 meninos de rua que dormiam na frente da Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro.

Era 23 de julho de 1993. Na época, ela cuidava das crianças abandonadas à própria sorte pelo Estado: o mais novo tinha seis anos de idade, o mais velho, vinte e poucos. “De noite vieram os telefonemas”, conta. “Os garotos gritavam: ‘Eles estão matando a gente!'”

Hoje, 25 anos depois, Yvonne é uma educadora de renome internacional. Mas aquela noite de sexta-feira marcou sua vida. É a história da chacina da Candelária, que causou indignação internacional, também pelo fato de mostrar um Brasil bem diferente daquele dos cartões-postais: um Brasil impiedoso, brutal e socialmente dividido. “Um país que até hoje existe”, comenta Bezerra.

Ao todo, oito jovens entre 11 e 19 anos foram fuzilados naquela noite. Como logo se revelou, os assassinos eram policiais do 5º Batalhão da Polícia Militar do Rio, no qual havia uma espécie de esquadrão da morte que também traficava drogas.

Há diferentes versões sobre o que os levou a massacrar os meninos de rua. Consta que os policiais estariam irritados por eles terem jogado uma pedra contra uma viatura no dia anterior. Além disso, contudo, a educadora está convencida de que se tratou de um acerto de contas: “Os policiais traficavam cocaína, e alguns dos garotos mais velhos os ajudavam.” Como havia uma conta aberta, eles resolveram se vingar. (Da DW)

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