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Política de e para parentes

Se depender dessas dinastias, o quadro no Congresso vai se manter nas eleições deste ano. Vários membros de clãs estrearam na política neste ano já de olho em uma vaga na Câmara. O ex-presidente e senador Fernando Collor (PTC-AL) lançou seu filho Fernando James Collor a uma vaga de deputado federal.

É o mesmo caso do senador Otto Alencar (PSD-BA), que quer emplacar Otto Filho. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, por sua vez, lançou seu filho, Rodrigo Oliveira (MDB).

Já o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), aposta em Marcelo Crivella Filho para uma vaga na Câmara. João Campos (PSB-PE), filho do ex-governador Eduardo Campos (que já era neto de um governador), estreia nestas eleições já disputando uma vaga de deputado federal. Outros tentam por enquanto mandatos mais modestos. Marcello Richa (PSDB-PR), filho e neto de ex-governadores do Paraná, se candidatou a deputado estadual.

No Rio de Janeiro, a presença de tantos membros de clãs políticos entre os candidatos criou uma espécie de frente de parentes de presos da Lava Jato. Três filhos de presos notórios da operação concorrem a cargos neste ano: o deputado federal Marco Antônio Cabral (MDB), filho do ex-governador Sérgio Cabral, disputa a reeleição; o deputado Leonardo Picciani, filho do ex-presidente da Alerj Jorge Picciani, é outro que tenta um novo mandato; e Danielle Cunha, filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, estreou na política já tentando uma vaga na Câmara.

Há também famílias que seguem conquistando cargos políticos desde o início do Império brasileiro. O deputado federal Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), descendente direto do patriarca da independência José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), anunciou que deve se aposentar neste ano. Mas sua família, que tem mandatos no Legislativo desde 1821, não pretende ficar longe da política. O deputado lançou um filho à sua sucessão na Câmara, além de outro filho e um neto para vagas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Outro neto, de 25 anos, é hoje vereador em Belo Horizonte.

Capitania hereditária – Em alguns casos o empurrão de parentes para a política é mais direto. Nestas eleições, pelo menos sete candidatos ao Senado indicaram parentes como suplentes. Um deles, Gilvam Borges (MDB-AP), nomeou o irmão e o filho para a primeira e segunda suplências. Já o candidato Pastor Everaldo (PSC-RJ), que disputou a Presidência em 2014, nomeou o filho como segundo suplente.

Mesmo entre os presidenciáveis há membros de clãs políticos. Além de Bolsonaro, que fundou sua própria dinastia, o presidenciável Ciro Gomes (PDT-CE) é filho de um ex-prefeito e irmão de um ex-governador. Geraldo Alckmin (PSDB), por sua vez, é sobrinho-neto de um antigo vice-presidente. João Goulart Filho (PPL) é filho de ex-presidente. Alvaro Dias (Podemos) é irmão de um ex-senador.

O parentesco com um político funciona como um atalho para conseguir um mandato. Não é apenas o sobrenome que ajuda o candidato a ficar conhecido entre o eleitorado. Muitas vezes os familiares que já possuem mandatos também são caciques partidários que comandam máquinas políticas – e consequentemente a estrutura de apoio eleitoral e os recursos reservados para campanhas.

Esse quadro tem efeitos explícitos entre os eleitos mais jovens da Câmara, que muitas vezes são lançados pelos pais que já têm mandato.

Em 2014, a ONG Transparência Brasil havia apontando que 85% dos eleitos para o Congresso naquele ano que tinham menos de 35 anos eram membros de dinastias políticas. 

Nas eleições deste ano – em que o financiamento privado está proibido – alguns dos campeões de repasses das direções de partidos são parentes de caciques. Lauriete Rodrigues (PR-ES), esposa do senador Magno Malta (PR-ES), que concorre a uma vaga na Câmara, recebeu R$ 2,3 milhões da direção nacional da sigla. No nanico Pros, a candidata a deputada Dona Cida, mãe do presidente da sigla, recebeu quase 700 mil reais da direção nacional.

Tudo na mesma panela – Uma boa parte desses valores faz parte do novo fundo público de financiamento de campanhas. Antes mesmo da criação do mecanismo, especialistas já haviam advertido que ele aumentaria o poder e influência dos caciques e dificultaria ainda mais a renovação no Congresso.

Segundo o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que estuda a genealogia e a influência das famílias na política brasileira, o modelo político do país “se organiza na sua infraestrutura pela dimensão familiar, muitas vezes mais orgânica e atuante do que os partidos, que muitas vezes apresentam apenas o papel de viabilização eleitoral das parentelas políticas”.

Segundo Oliveira, tal modelo arcaico resulta em consequências graves para o Brasil: “A desigualdade social é mais um produto da desigualdade familiar na representação do poder político, em que famílias e grupos da classe dominante controlam e hegemonizam o poder político, em detrimento de grupos sociais excluídos da classe trabalhadora, do campesinato, dos pobres, negros, mulheres e muitos outros grupos subalternos na sociedade brasileira. Um partido político formado por oligarquias familiares não terá como objetivo a ampliação dos direitos sociais.”

Para alguns estados e regiões, a dificuldade de renovação e de se afastar da preponderância desse modelo de dinastias é ainda maior. No Rio Grande do Norte, 100% dos deputados federais eleitos em 2014 tinham parentesco com outros políticos.

O Nordeste é de longe a região com a maior presença de dinastias na Câmara: 63% dos deputados federais da região têm essas relações de parentesco. Entre os senadores, o percentual é de 59%, segundo a Transparência Brasil.

Já o Sul é a região com a menor incidência entre seus deputados: 31% dos nomes da região que chegaram à Câmara em 2014 tinham laços familiares. Mas entre os senadores o percentual foi mais alto que o nordestino: 67%.  (Da DW)

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