No Brasil não existem partidos políticos, diz Valmir Lopes, professor na Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. É uma política feita de personalidades, ou se gosta ou não se gosta. Mas nestas eleições, vai-se além de escolher figuras.
São marcadas por um sentimento forte e apenas isso: impedir a todo o custo que o Partido dos Trabalhadores (PT) volte ao poder, ou lutar apaixonadamente para que o PT regresse ao Governo. Nada mais interessa.
A repórter Clara Barata, do Público, fez a entrevista. Veja os tópicos da análise do professor Valmir Lopes.
“Esse foi o ano (2013) em que a economia já estava a dar sinais de problemas, embora ainda estivesse forte, e o Governo tinha uma boa aceitação popular, na faixa de 70%. Mas de repente houve uma série de manifestações e a aprovação da presidente Dilma Rousseff caiu de 70% para 15%. Foi um desastre do ponto de vista político. Isso vai produzir um efeito na campanha de 2014, que será extremamente radicalizado e polarizada”.
“A grande figura que encarna a corrupção para a classe média é Lula. Quem vai capitalizar este sentimento é a ultradireita, com Bolsonaro. O eleitor de Bolsonaro é extremamente decepcionado com a política tradicional. Acha que tudo o que aconteceu se deve à forma como o país é gerido. Bolsonaro é um candidato contra tudo e contra todos, é um candidato contra o sistema. Ao fazer isso, empareda o PSDB que também vai ser envolvido na corrupção com Aécio Neves, que tem um impacte enorme”.
“Os apoiadores do PT dizem: “Todo o mundo rouba, pelo menos esses roubaram e distribuíram.” As acusações de corrupção não os incomodam muito. Mas com os do PSDB, que são classe média, membros da elite brasileira, é mais complicado. Sentem-se diretamente afetados. Punem o partido e não vão votar no PSDB. E, paralelamente, surge o capitão Bolsonaro, que encarna a figura do homem contra o sistema, e faz uma campanha na base desse sentimento”.
“Começa a existir este quadro: Lula preso, e todos aqueles que eram candidatos anti-Lula vão-se fragmentando e há uma enorme onda anti-PT. Objetivo é impedir que o PT chegue ao poder. E, do lado de lá da barricada, o objetivo é o inverso, fazer o PT regressar ao PT. A sociedade dividiu-se entre os que fanaticamente não querem o regresso do PT e os que fanaticamente querem impedi-lo”.
“Ao lado, temos uma crise gigantesca, que nenhum dos lados está discutindo. Enquanto isso, os candidatos que ficaram a meio da tabela, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, estão a propor discutir a crise e como sair dela. Só que se geraram dois campos antagônicos, este discurso de centro não encontra eco na sociedade. Só interessa posicionar contra ou a favor do PT. Acabou”.
“A simpatia e a antipatia pelo PT tomaram conta do debate público, e está-se a fazer uma campanha eleitoral sem temas. Ninguém imaginava que se iria chegar a este ponto de inviabilização do próximo governo – nenhum candidato no segundo turno conseguirá mais de 60% dos votos. É impossível neste quadro algum candidato ganhar por uma margem muito grande. Assim, não poderá apresentar propostas de reformas impopulares, como a reforma da previdência, que é urgente, mas gera muita antipatia, em parte porque há grande desinformação. Em breve, o país estará a canalizar todo o dinheiro cobrado pelos impostos para pagar aos reformados”.
