Assisti na Espanha há alguns anos o que eles chamam de corridas de toros, sete a cada tarde. Retirei-me logo após a primeira.
O portentoso touro miúra que adentrou a arena quando abriram os portões que o detinham, foi reduzido por picadores e lanceiros, através de um sangramento contínuo, a uma sombra do animal que o toreador se dispusera a enfrentar.
Esse enfrentamento a rigor só se dá depois que o animal enfraquecido se confunde investindo na capa de seu algoz, para ao final, exausto e ofegante, com a cabeça baixa e o cachaço devidamente exposto para o golpe final, recebe a estocada do sabre que se lhe enfia pela nuca até o cabo.
Não se trata, portanto, de equilibrar as forças entre o homem e o animal, mas de deixar este último em condição absolutamente precária.
Essa torturante execução espanhola é substituída em Portugal por um arremate humilhante.
Os toreadores se colam numa fila longa, cabendo ao primeiro receber o impacto do touro enfraquecido e o último da fila corre então e o segura pela cauda, após o que o animal é retirado da arena em meio a um grupo de novilhas, para de qualquer forma ser sacrificado lá fora.
Ora, da mesma forma que Sobral Pinto, com repercussão mundial, invocou em favor de Luis Carlos Prestes a lei de proteção aos animais, para livrá-lo da tortura e do confinamento em espaço mínimo e insuportável, cabe agora ao País, independentemente da opinião que tenha do capitão Bolsonaro, invocar a seu favor os mais comezinhos princípios de humanidade para sustentar seu direito de não ser arrastado a um debate após breve período decorrido desde o esfaqueamento.
Na verdade, quem insiste nisso não está interessado nas suas ideias, mas em vê-lo em condições fisicamente desfavoráveis, diante de um adversário em pleno gozo da saúde física e ansioso em demonstrar, enganosamente, ausência de condições da vítima de atentado para sustentar debates e teses, induzindo o público a que daí decorreria uma capacidade menor para governar.
Ao senhor Haddad, ou Andrade, como querem os nordestinos, só restam duas alternativas para ser justo e demonstrar que não mente quando fala em democracia: ou dispensa o debate ou se submete antes dele a uma cirurgia.
Pão e circo é um binômio para os romanos antigos. Nós precisamos de pão, mas dispensamos o circo.
Todo o País sabe que o programa de um dos candidatos é o seu próprio nome, Bolsonaro. E o programa do outro é o script que recebe todas as segundas-feiras do PCC político enclausurado em Curitiba.
Portanto, insistir no debate é uma covardia, que nada acrescentará ao que já sabemos, servindo apenas para medir a virulência das respostas e para ver se o contendor ferido morrerá no palco ou terá que ser arrastado para fora dele.
Não é preciso chegar a tanto. O País será suficientemente esclarecido pelos pronunciamentos em programas eleitorais, sem que haja necessidade desse Big Brother Brasil mórbido, que não pode ser o fundamento da renovação nacional.
