Escrevo para me despedir, Pátria Amada. Não da luta, nem da vida pública, nem da manifestação cívica em que perseverarei como articulista nesta trincheira amiga em que a verdade encontra asilo.
Escrevo para me despedir de vós, Pátria minha, tal como a minha geração e tantas outras tiveram a sorte de conhece-la, marcada pela inteligência, pela cultura, pela cordialidade, por um tropicalismo que fazia do Brasil um grande país.
Mesmo quando ainda pequeno na influência entre as nações, garantia aos seus cidadãos um sistema de mérito que não se aferia apenas por concursos, currículos e muito menos atestados de vida pregressa, mas sim pela importância biográfica que se construía ao longo de toda uma vida.
Levará muito tempo para revê-la, Pátria Amada.
E não poderia deixar para despedir-me no último dia e com um lacônico bilhete.
O país cresceu e adotou o sistema do demérito, valorizando o chucro, o lucro, a ignorância, a ausência de princípios e a obsessão pelo êxito, a qualquer preço e a qualquer custo.
Essa renúncia espiritual, intelectual e moral é a raiz tanto da corrupção quanto da violência, nas suas formas ardilosas e variadas.
Umberto Eco salientou pouco antes de sua morte que é preciso reconhecer o caráter majoritário da ignorância e da imbecilidade.
Completou que em consequência os meios eletrônicos concederam voz e poder à maioria despreparada, massa de manobra ideal para os demagogos de qualquer ideologia.
E o professor Karnal destacou com propriedade que basta uma linha de internet para que os incultos se considerem de uma só vez catedráticos de direito, de sociologia, de economia.
O país não conversa mais, troca mensagens. E quando não se entende o que se lê, por mais curto que seja o texto, já que poucos se dispõem a ler mais do que duas linhas ou um primitivo desenho transformado em sinal, responde-se com um kkkk, que recairá sobre o próprio autor, pois ri melhor quem ri por último e infelizmente entre nós rirá o mal que nunca lhe desejamos, Pátria minha.
Qualquer que seja o desfecho, já perdeu o Brasil, dividido, rancoroso, enganado quanto ao que está prestes a acontecer.
A eleição não será um desfecho, mas mera continuação dos tormentos de uma Casa Dividida, em que têm certamente graves responsabilidades os eleitos nos últimos anos, mas também os eleitores de todas as épocas.
Ninguém nos últimos trinta anos chegou ao poder pela força, mas pelo voto. A autocrítica portanto deve ser de todos, pois corremos o risco de ter saudade destes dias que agora repudiamos.
Não há pessimismo onde se proclama a realidade. O que há é idiotice em sustentar otimismo contra todas as evidências.
Milhões de brasileiros continuaremos a servi-la, Pátria Amada, até que possamos revê-la como sempre foi, esperando com o sentimento que o poeta expressou arrematando com seu próprio nome:
“Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudade de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”
E também, saudade minha.
