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Vale nada

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Só haveria um cenário próprio para que a presença da direção da Vale fosse registrada, a dos seus corpos em meio à lama, se tivessem honra e como faziam os comandantes antigos que afundavam com seus navios. 

Suas explicações só poderiam estar gravadas em seus jazigos, como desculpa final, inaceitável, a Minas e ao Brasil. 

A lama moral do corporativismo privatista materializou-se para esmagar, pela segunda vez, sem vergonha e sem constrangimento, os operários cujas mortes se transformam em chumbo de saudade para os seus sobreviventes. 

A Vale ainda não aprendeu a lição. No preciso momento em que estas palavras são escritas, outras e muitas barragens continuam se enchendo para provocarem a terceira e as subsequentes tragédias, se o Estado não demonstrar cabalmente que autoridade não é autoritarismo e que a Constituição não é esconderijo para os bandidos capitalistas que só entendem esse regime em sua forma selvagem, alimentando com a morte dos filhos dos outros a vida da sua própria prole. 

É preciso deter a Vale e seus diretores, fisicamente responsáveis por mais este homicídio coletivo que não se abriga na simples culpa, mas alcança o dolo na sua forma eventual, vale dizer, assumir o risco de matar e não como comportamento excepcional, mas como prática rotineira de empresários apátridas que se comportam como colonialistas genocidas, enquanto no Chile, na Indonésia  e até na China esforços brutais foram coroados de êxito no resgate de vidas humanas, em condições menos favoráveis e numerosas que as nossas, pois lá os eventos já se haviam verificado, enquanto que aqui jogamos e continuamos jogando fora as oportunidades de prevenir e evitar. 

Não se tem notícia em nenhum lugar do mundo de exploração de recursos minerais com represas colocadas em nível mais alto que os vales habitados, da mesma forma que, ainda no caso do minério de ferro, a mineração a céu aberto, com uso de potentes explosivos, caracteriza um arcaísmo constrangedor para a atividade empresarial brasileira. 

É preciso uma punição tão dura quanto aquela que os Estados Unidos aplicaram há alguns anos à empresa britânica que poluiu fortemente as águas americanas pelo derramamento de petróleo e que foi penalizada tão fortemente a ponto de preferir encerrar as suas atividades. 

Os muitos que têm procurado engabelar as vítimas de Bento Rodrigues com propostas de acordo, contras as quais já os vacinou a empresa internacional de advocacia que assumiu no exterior a representação de pessoas físicas e entidades jurídicas, inclusive públicas, contribuíram pela impunidade para a qual colaboraram para a repetição em Brumadinho da tragédia até hoje sem reparos de Bento Rodrigues. 

No episódio se somam a ganância privatista e a indolência governamental e nesta hora em que se lembra Drummond como profeta da tragédia, cabe lembrar também, pelo mesmo heroísmo daquém e d’além mar, as palavras de Fernando Pessoa que revendo a história de tragédias portuguesas, lá heroicamente verificadas e aqui covardemente praticadas, exclamou com a mesma dor pungente que ora nos aflige o coração: 

“Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”.

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