Texto de Bem Hoyle
Alguns meses após o início de uma reforma confortável, Roger McNamee decidiu embarcar numa missão que prometia alienar muitos dos seus amigos, que tinha poucas possibilidades de sucesso imediato e que podia, a longo prazo, custar-lhe uma fortuna.
McNamee encarregou-se da missão de levar um mundo complacente a defender-se do Facebook. Já outros tinham soado alarmes semelhantes, mas este investidor de 62 anos trouxe uma credibilidade pouco comum à causa e detalhes em primeira mão.
Além de ser um dos financiadores mais ilustres na história de Silicon Valley, foi um dos primeiros a investir no Facebook, foi mentor de Mark Zuckerberg e foi uma figura fundamental na contratação da “número dois” da rede social, Sheryl Sandberg, autora do manifesto feminista Lean In.
Demorou pouco para o Facebook deixar de ser a única preocupação de McNamee. Quanto mais investigava, mais o investidor começava a perceber que o Google, que não conhecia tão bem, tinha de ser pelo menos tão perigoso para a democracia, saúde pública, privacidade e economia em geral como a outra plataforma da Internet. E mais: McNamee suspeitava de que ambas podiam estar a explorar “elementos frágeis da psicologia humana” para obter lucros de formas que só se iam tornar mais assustadoras.
Estas conclusões — que McNamee e um grupo chegado de aliados passaram os últimos dois anos a partilhar com políticos, procuradores de Justiça, telespectadores e líderes de tecnologia — são agora detalhadas no novo livro do investidor, Zucked: Waking up to the Facebook Catastrophe (Despertar para a Catástrofe do Facebook; o livro, lançado no dia 5 de fevereiro, ainda não foi traduzido para português).
São conclusões que o têm levado ao desespero. “Algumas das coisas que descobri deixaram-me de coração partido”, diz McNamee, sentado numa sala de estar ampla forrada com painéis de madeira, a uma hora e meia para sul de São Francisco, nos EUA. “Esta tem sido a experiência mais decepcionante de toda a minha vida”, acrescentou, medindo cada palavra cuidadosamente, para lhes dar ênfase. “Cada detalhe tem sido arrasador. Passei a minha carreira inteira a construir empresas assim. E agora tenho de desafiar duas delas por quem tive o maior respeito durante imenso tempo. Que empregam muitas pessoas com quem eu gostava mesmo de trabalhar.”
McNamee ganhou muito dinheiro com investimentos na fase inicial do Facebook e do Google e mantém-se “incrivelmente orgulhoso” do trabalho que fez com ambas as empresas. O magnata de Silicon Valley mantém ações significativas no Facebook como prova de que não está a agir em prol de interesses financeiros. Até há pouco tempo, ainda considerava Zuckerberg — “Zuck” para o seu círculo mais chegado — e Sandberg amigos. Foi por isso que, quando começaram a surgir as primeiras provas de que o Facebook estava mesmo “a causar enormes danos”, McNamee ficou chocado com a relutância de ambos arcarem com as consequências.
Em 2017, o Facebook admitiu que 126 milhões de utilizadores tinham sido expostos a interferências orquestradas pela Rússia nas eleições norte-americanas. Em Fevereiro de 2018, o procurador especial Robert Mueller acusou formalmente 13 cidadãos russos e três organizações em casos que mostraram a facilidade com que Facebook, Instagram e Twitter foram usados para espalhar desinformação, semear a discórdia e suprimir votos nas eleições presidenciais norte-americanas em 2016, que deram a vitória a Donald Trump.
No mês seguinte, as Nações Unidas revelaram que a falta de controlo e proliferação do discurso de ódio contra a Birmânia no Facebook tinha desencadeado “uma limpeza étnica” no país (as notícias falsas na rede social — que culpam a minoria muçulmana rohingya dos males do país — levaram militares da Birmânia a atacar, violar e assassinar membros dessa comunidade).
Dias mais tarde, surgiram notícias que revelavam que a consultora britânica Cambridge Analytica — que trabalhou com a campanha presidencial de Trump e com a equipa que fez campanha para a saída do Reino Unido da União Europeia — tinha recolhido indevidamente dados de até 87 milhões de pessoas com conta no Facebook. A rede social tinha encoberto o problema durante dois anos.
Desde então, as más notícias têm continuado a atingir o Facebook. E também o Google, que no mês passado foi multado com um valor recorde de US$ 50 milhões (cerca de R$ 550 milhões) pelo governo francês por causa da forma como usa os dados dos utilizadores.
Tecnologia e música psicadélica – McNamee tem sido um evangelista da tecnologia. É também um capitalista dedicado, embora com “um sistema de valores hippie” autodefinido, que reflecte o seu outro grande interesse: tocar guitarra numa banda de rock psicadélica.
O homem que está a enfrentar duas das maiores e mais poderosas empresas na história lembra que já “sobreviveu a dois enfartes, uma operação de coração aberto e a uma cirurgia para salvar a vida aos dez anos”. Isto para além de, a meio dos 30 anos, ter acordado “com o quarto a arder na manhã de Natal” e de ouvir um médico dizer-lhe: “Quase de certeza que vai desenvolver um cancro no estômago. Tem de alterar radicalmente a sua dieta”.
McNamee fez uma pausa na enumeração: “Eu sou uma pessoa que já teve de absorver uma tremenda quantidade de más notícias.”
McNamee gostou de Zuckerberg. Nos três anos seguintes, iria aconselhar este jovem rapaz, que descreve como “intenso”, várias vezes por mês. McNamee admite que havia outros mentores no processo, “muitos com um papel bem maior”, mas entre 2006 e 2009 Zuckerberg seguiu os conselhos de McNamee mais frequentemente do que o contrário.
A intervenção com mais impacto veio em 2007, quando Zuckerberg revelou a McNamee que queria contratar alguém que poderia vir a ser um “número dois” forte na empresa. McNamee pensou logo em Sherlyn Sandberg, que na altura era uma executiva do Google que o tinha apresentado a Bono uns anos antes.
Nem Zuckerberg, nem Sandberg estavam certos da combinação, mas McNamee organizou uma reunião entre os dois. E Sandberg juntou-se a Zuckerberg como directora de operações do Facebook em Março de 2008. Por essa altura, McNamee, Bono e outro parceiro da Elevation tinham feito investimentos pessoais no Facebook.
Outras oportunidades surgiram para a empresa comprar mais acções da rede social e, por ocasião da oferta pública inicial do Facebook (IPO, na sigla inglesa), que quebrou recordes em 2012, documentos oficiais revelavam que a Elevation Partners detinha 1,5% da empresa.
Saltando na história até outubro de 2016, McNamee já não estava diretamente envolvido no Facebook desde 2009, mas continuava a descrever-se como “um enorme fã”. Durante a tumultuosa campanha presidencial nos EUA naquele ano, porém, começou a ficar cada vez mais preocupado com os algoritmos da plataforma, que pareciam estar a acentuar a polarização política no país.
McNamee estava particularmente alarmado com relatos sobre suspeitas de interferência russa nas eleições. Questionava-se se a Rússia estava entre os agentes a usar o Facebook para espalhar notícias falsas e semear a divisão.
A hierarquia do Facebook parecia estar a ignorar o problema. McNamee escreveu um memorando com os seus receios, mas, antes de o publicar num blogue de tecnologia, enviou-o a Zuckerberg e Sandberg, por sugestão da sua mulher, Ann.
No texto, que nunca chegou a ser publicado, McNamee dizia aos dois executivos do Facebook: “Estou desiludido. Estou envergonhado. Tenho vergonha.” E motivava-os a “ser mais socialmente responsáveis”.
Tanto Zuckerberg como Sandberg responderam ao email horas depois de ser enviado. McNamee foi aconselhado a falar com o responsável do Facebook pelas parcerias de media, que ouviu pacientemente as suas preocupações durante semanas, mas “nunca se mexeu”.
Em Fevereiro de 2017, McNamee concluiu que o Facebook era um “perigo claro e presente para a democracia” liderado por uma equipa em negação.
(Ben Hoyle trabalha no Times e no Atlântico Press)
