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Carne moída

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Sem vestígios de nossa vaidade patológica, quando imaginamos uma família de margarina sem saber que isso não existe. O que existem são famílias, todas deformadas, com segredos de alcova, traições, mulheres transgressoras – divorciadas, separadas, traídas, amantes, recalcadas, más e as que são oferecidas em holocausto por bode expiatório.

Homens talentosos, tios-avôs de ouro e gentileza com açúcar, gente que nunca sairá da memória do que sou enquanto essa memória – não eu!, existir.

Quase todos os meus tios-avós já se foram, restam-me não mais que três! Com eles foram-se as pizzas de pão, os bichinhos – jabotis e veados, cachorros, gatos, cafezinho, costureiro, afeto. Obrigada por terem entrado na minha vida, eu precisava tanto de vocês, havia uma aspereza na vida que vocês não tinham.

As casas eram acolhedoras, eu me recordo sempre de um cheirinho adocicado como amaciante de roupa. Enceradeira no taco de sinteco, havia uma sala perfeita na decoração, uma almofada de crochê, plantas, um jardim majestoso, que coisas sensacionais vocês foram para mim! Obrigada por terem me ensinado truques de casa, receitas, como cuidar de plantas e jogo de baralho, de Master, de tudo.

Obrigada pelas longas conversas sobre política, mil vezes obrigada por sua erudição, sua memória cirúrgica. Obrigada pela D. Maria, primeira pessoa que ouvi falar de Jararaca e Ratinho, Pena Branca e Xavantinho. Que santa, a D. Maria! Deus a olhe no céu, D. Maria. Maria, Maria, Deus a olhe no céu.

Obrigada, Tia Deise, pelo cafezinho. Quando me lembro da senhora, me vêm à memória aqueles personagens épicos de Eça de Queiroz: uma fisionomia portuguesa por demais. Tia Paizinha, tão entusiasmada com um jardim que era realmente lindo. Tia Zezé, que saudades! Passei muitas tardes realmente felizes vendo a sra. cozinhar pratos deliciosos. A aridez familiar de minha vida era regada de vez em quando pelo amor de vocês. Tia Anita e Tio Carlos, aquela chácara está aqui dentro de mim inteira, coração e mãos, olhos, chuvas e abelhas, carroças, lama, observatório, cantorias, Bossa Nova, uma vitrola e LPs de João Gilberto, Tom Jobim e Beethoven.

Uma vez eu estava na sala ouvindo a 6ª Sinfonia de Beethoven e de repente saí da casa. O som estava alto e eu olhei aquele verde, reluzente, o cheiro de mato, de terra molhada, os primeiros besouros já por volta de dez horas. E A Pastoral enchia meus olhos também, era recriada ali, naquela chácara familiar. Flores, uma mangueira majestosa, um chuveiro providencial.

Era simples e extremamente despojado, verdadeiro, sem luxos e honesto. Era confortável no inverno e ventilada no verão. Quantas as férias, os finais de semana, as festas de São João, tudo muito e tão bom. Antes que se falasse em ecologia, vocês já tratavam o lixo, já economizavam e nunca, jamais, jogavam lixo na rua (lição muito bem aprendida, como tantas outras).

Tia Izilda, Tio Zé Mota, vocês me fazem tanta falta! Se alguém quer um guia de sobrevivência básica em meio ao caos, minha resposta será sempre: avós. Tios-avós também estão aí, como é importante para a criança estabelecer laços estáveis, vivenciando o dia a dia de lares regulares. Vocês podem dizer que estou idealizando. Não estou. Era realmente uma maravilha.

Aquela parede do quarto coberta de folhas da revista Nova Cosmopolitan, coisa incrementada artisticamente, na época acho que era um must.

Uma vez, indo para São Paulo, em um fusca. Mata Atlântica, chuva torrencial, noite, o carro quebra. Não me lembro direito o que foi. Mas ficamos dentro do carro, eu e minha irmã. Não me lembro quanto tempo se passou, mas tudo foi resolvido. Do lado de fora estava um caos, mas nós nos sentíamos seguras. Tio Paulo, o senhor era pessoa das mais gentilíssimas que conheci.

Tia Zezé, como a senhora foi incrível. Tia Alésia, tão pequenininha, para mim era grande. Tia Idinha, Tio Zé Pinto, eu os amo muito. Obrigada por tudo. Perdão se não citei alguém. Meu coração se alargou enquanto eu convivi com vocês.

Agora vou terminar este texto. Que não deveria terminar, tenho mais um coletivo de boas lembranças, de felicidade, de coisas boas. Estou me despedindo de vocês só agora. Tio Carlos morreu não faz muito tempo. Agora mesmo também me lembro do Tio Salgado, algo inexplicável, tanta ternura num homem de gestos simples que se recusava a comer uma galinha das tantas que habitavam seu sítio.

Era espírita, levava a sério, era vegetariano. Isso lá pelos anos 80. A chácara era vizinha, ali era depois do Valparaízo. No princípio era o caos, depois piorou. Urbanização desordenada, invasões. Falta de rede de esgoto, lixões. Nos anos 2000 o local já se degradara. Lugar lindo, na chácara havia um rio, que maravilha era! As margens alargaram-se por demais, dando origem a “prainhas”. Vou parar aqui.

Era um lugar feliz, hoje é lugar de saudades e de infância. Cada árvore daquelas eu conhecia. Os lugares também se movimentam. Viram toda uma outra coisa, ali havia cerrado, árvores majestosas retorcidas, flores estranhas, cupinzais gigantescos em meio ao barro vermelho. Será que ainda há um lugar assim na Terra?

Hoje há celular em tudo. Ninguém mais se contenta em jogar baralho, ouvir o silêncio olhando por um telescópio os astros. Noites frias em que cantávamos alguma música que todos sabiam. Recortes de vários capítulos bons da minha vida, houve tanta poesia aí.

Sinto saudades em modo slides de fotos do zoológico. Fico admirada por ter estado em horas tão únicas, salpicadas de saudades, de melancolia, de anos 70 e 80. Vida boa!

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