A construção de uma narrativa, de uma história, exige a presença de elementos como enredo, protagonistas, antagonistas, tempo, espaço, obstáculos, peripécias etc. De acordo com o estudioso da literatura e historiador Tzvetan Todorov, em As categorias da narrativa literária: “Ao nível mais geral, a obra literária (assim como qualquer narrativa) tem dois aspectos: ela é ao mesmo tempo uma história e um discurso. Ela é história, no sentido em que evoca uma certa realidade, acontecimentos que teriam ocorrido, personagens que, deste ponto de vista, se confundem com os da vida real.(…) Mas, a obra é ao mesmo tempo discurso: existe um narrador que relata a história; há diante dele um leitor que a percebe. Neste nível, não são os acontecimentos relatados que contam, mas a maneira pela qual o narrador nos fez conhecê-los.”
A estrutura da narrativa da esquerda do Brasil talvez tenha tido seu clímax na eleição de Lula, mas o desfecho está longe de acontecer. O enredo não é linear: Marighela confunde-se com Marielle, Jean Wyllys toma para si o papel de “refugiado político” e imprime à sua atuação notas das décadas de 1960 e 1970 e outros déjà vus semelhantes. Essa história narrada pela esquerda já determinou seus heróis: Lula, José Genoíno, Carlos Marighela, Jean Wyllys, Marielle Franco, Márcia Tiburi etc. Não é difícil identificar os heróis. Desde a escrita da bíblia esquerdista, O Capital, personagens da esquerda mundial ocupam lugares em reportagens, livros de história, filmes, canções populares, imaginário coletivo.
Não se trata apenas de “uma narrativa”, mas de uma que começou a ser construída com base no julgamento crítico de Karl Marx para posições ocupadas na sociedade de então. Desta forma, não falaríamos mais de pessoas, mas de funcionalidades, de arquétipos: o “capitalista malvado”, o “operário sofredor”, a “vanguarda messiânica”, o “guerrilheiro de bom coração” etc.
Ao longo de mais de um século, esses arquétipos foram ocupados por sujeitos diferentes, mas a associação entre funções socioeconômicas e o respectivo julgamento de valor sempre foi feita. Chico Buarque talvez seja o compositor brasileiro que mais desenvolveu narrativas da esquerda em suas letras de canções. Criou o “operário sofredor”, em Construção; o “menor infrator de bons sentimentos”, em Meu Guri; o “capitalista malvado” vs o “trabalhador explorado” em Deus lhe pague, o “contraventor bom caráter” em A ópera do malandro e por aí vai. Quase nunca lhe ocorreu compor a respeito de escolhas e personagens reais, o que implicaria, entre outros aspectos, responsabilidade individual por escolhas, em vez de vitimização. Boa parte de sua obra caracterizou personagens da narrativa socialista sob uma ótica brasileira.
Mas, sem dúvida, o grande narrador, a voz do texto desta história da esquerda é a mídia, que funciona como um (falso) narrador-observador, não participando dos acontecimentos. Os livros de história, posteriormente, assumem a função de narrador onisciente, que conhece até mesmo os pensamentos íntimos dos personagens. Assim foi introduzido na história o personagem Zumbi dos Palmares, acerca do qual não pairava nenhuma dúvida: foi o grande herói do povo negro escravizado no Brasil. Sabemos que fatos dissonantes nunca fizeram parte da construção do perfil de Zumbi: tinha escravos, participou do assassinato do próprio tio, era um déspota. A literatura de José de Souza Martins (Ed. Civilização Brasileira, 2007) evidencia essas “falhas”, encobertas em favor da concepção de um arquétipo no inconsciente coletivo que teve seus efeitos na idealização do “movimento negro” brasileiro e de dezenas de ONGs que lhe são relativas. Do mesmo modo, a produção de leis que adaptassem a realidade institucional a esta e outras “evidências históricas” foi a consequência natural dessa narrativa: nasceu, dessa forma, a “política de cotas” e semelhantes.
Os maiores criadores das narrativas da esquerda são a mídia, como observador contemporâneo e “imparcial” – sabemos, todos, os da esquerda e os da direita, que não há “mídia imparcial”, salvo quando ela nos serve – e os livros de história, por sua vez, que retomam os acontecimentos sob uma perspectiva “científica”, elaborando um discurso tampouco isento de marcas ideológicas.
O discurso da mídia é incessantemente analisado na área da Linguística. Há, inclusive, uma subárea específica dos estudos do discurso que se dedica a estudar, sob paradigma marxista, os textos dos jornais e da mídia, em geral. “Mídia imparcial” é algo tão sem sentido quanto “Justiça cega”, porque, no final das contas, quem se senta para escrever um texto ou analisar um processo não é máquina, mas ser humano cujos discurso e pensamentos foram concebidos, historicamente, sob uma égide ideológica. Mesmo que não haja “intencionalidade” no discurso, a ideologia permanece.
Isso não equivale a dizer que esquerda e direita são apenas times de futebol adversários, sem julgamento ético e moral sobre as ações de sujeitos de uma e de outra. Se a análise histórica é bem-feita, se há honestidade na análise dos dados, caem por terra 95% dos heróis esquerdistas. Os 5% que sobram estavam naquela narrativa por engano. De Stalin e Marighela, de Marx a Trotsky, de Che Guevara a Lula, de Zumbi a Mandela, nenhum deles foi exemplo de nada. Ao contrário, sua descrição messiânica não condiz com suas ações e interesses.
A grande mídia, neste momento, está construindo a narrativa socialista do futuro no Brasil. Lula é o herói injustiçado; Bolsonaro, o presidente despótico e atrapalhado; brasileiros conservadores e liberais são “a direita fascista”; Jean Wyllys e Márcia Tiburi se apresentam como vítimas do tal “fascismo”.
Com base nessa narrativa, já montam cenário para as próximas eleições, nas quais esperam que Lula esteja “livre”. Não é algo inocente, destituído de malícia: é a construção racional de uma história baseada sobretudo na ideia de que os governos de Lula foram as melhores coisas que já aconteceram ao Brasil, de que ninguém poderá superá-lo e de quem o critica é um inimigo dos “valores” que ele e seus seguidores cultivam: a fraternidade, a igualdade, a justiça social, a democracia e a liberdade, para dizer os mais populares.
Nesse sentido, iniciativas que assumidamente não são de esquerda, na construção verbal de “um outro mundo possível”, são essenciais para que se compreenda, não tardiamente, que Zumbi não foi um herói – entre outras compreensões, tão necessárias. Nascem canais alternativos de mídia que, já caracterizados pelos narradores oficiais como difusores de “fake news”, tentam expor a verdade dos fatos sem a tendenciosidade ideológica da esquerda.
É preciso estar atento ao gracejo que faz de alguns pontos de vista a respeito do governo federal candidatos à unanimidade. Entre o fato e as versões do fato há uma distância longa a se percorrer e é preciso ter cuidado com que narrativas estão sendo construídas sobre o Brasil neste momento: são essas histórias que vão ficar em nossas memórias.
Nunca é demais lembrar que a “Comissão da Verdade” jamais quis debater as mortes causadas pelos “revolucionários” e “guerrilheiros” socialistas. O tenente Mário Kozel Filho, para citar um exemplo, foi morto em um atentado da Vanguarda Popular Revolucionária em 1968. Para os narradores da história oficial da esquerda, ele nunca foi mais que dano colateral de um “processo revolucionário”. Ele jamais recebeu nem sequer uma nota de reconhecimento. Sua família nunca foi indenizada. Seus assassinos são considerados heróis e vítimas. Assim se constrói a narrativa da esquerda no Brasil.
