As rusgas entre o professor Olavo de Carvalho – e, por extensão, seus seguidores, entre eles Carlos Bolsonaro, filho do presidente – e a ala militar do governo Bolsonaro começam a produzir efeitos. Um deles foi visto nesta semana, no Congresso Nacional: derrota em relação ao Coaf, que saiu do Ministério da Justiça e foi para o Ministério da Economia, criação de mais dois ministérios e retirada da Funai da pasta da ministra Damares Alves, antes entregue ao Ministério da Justiça.
A própria criação da Comissão Mista já se impunha como antevéspera de tragédia sem que o governo demonstrasse força nem apoio popular. Sem as contrapartidas de costume, largamente utilizadas por Lula e Dilma, Bolsonaro só deve contar com o bom senso e o patriotismo dos deputados e senadores – virtudes que são, para muitos deles, sinônimos de nada. Boa parte do povo que apoia o presidente, por sua vez, é movido a redes sociais e sabe que pode pressionar os parlamentares, inclusive indo às ruas – o que se faz sistematicamente desde 2013.
Onde estavam os apoiadores de Bolsonaro, quando esses assuntos de primeira importância eram decididos? Onde estavam os tuítes, as postagens, os vídeos de youtubers aliados, enfim, a rede de sustentação que consegue movimentar as redes sociais a favor do governo? Estava se ocupando dos militares que o próprio Bolsonaro escolheu para compor sua equipe. Em atitude autofágica, a maioria estava atacando alguns ministros. Outros, surpresos, aderiram ao debate acerca da validade ou da eficácia dos ataques.
Um dos resultados já pode ser visto. Com o Executivo fragilizado, setores do Congresso trabalharam rapidamente a fim de estabelecer sua hegemonia sobre pontos estratégicos para o governo. Consumidos por conflitos desnecessários, que poderiam ter sido debatidos internamente, membros do governo ocupavam-se também em se defender em público de acusações proferidas pelo professor Olavo de Carvalho – ou em reiterá-las.
Mas há que se lembrar, em boa hora, que a própria manutenção do governo Bolsonaro depende dos avanços que porventura forem efetuados em áreas como Economia, Segurança Pública, Educação e Saúde e, não obstante a vontade de mudar, o Executivo necessita se entender com o Legislativo para que as mudanças de fato aconteçam.
Os que apoiam Bolsonaro precisam eleger suas prioridades. Caso as reformas e a pressão ao Legislativo e ao Judiciário não assumam papel principal na lista de postagens, manifestações e vídeos, vamos nos preparar para o domínio do centrão mais a pior recessão da História do Brasil. Isso, sim, pode engolir Bolsonaro e todo seu Governo.
