Os fatos são de conhecimento geral e não há como negá-los. A disputa em torno do comando da Polícia Federal acirrou os ânimos e alimentou a crise política em curso. A conclusão de momento apenas confirmou os interesses em jogo.
Apenas para relembrar, a atuação do então diretor-geral da instituição, Maurício Valeixo, não era do agrado do presidente Jair Bolsonaro, que solicitou sua exoneração. O responsável direto pelo cargo, Sérgio Moro, que era o titular da Justiça, não aceitou a pressão e, após uma queda de braço, deixou o cargo. Junto com ele, saiu Valeixo.
A situação fica mais que evidente a partir desse ponto. Bolsonaro desejava no posto alguém de sua extrema confiança – e de sua família. A insistência no nome de Alexandre Ramagem expôs a delicadeza da questão. Mais do que afinado com o bolsonarismo, o potencial candidato é amigo dos filhos do presidente. O homem certo no lugar certo, portanto.
Não estava nos planos presidenciais a ação do Supremo Tribunal Federal que, por meio do ministro Alexandre de Moraes, suspendeu a posse de Ramagem. Ele contava com o apoio velado da maioria de seus pares.
A partir daí, flertou-se seriamente com uma crise institucional. A participação do presidente em manifestação a favor do fechamento do Congresso Nacional e da Corte deixou clara, entre outras coisas, sua disposição em interferir no comando da PF – isso sem falar no pouco apreço aos valores democráticos.
Assim, chegou-se a uma solução intermediária, que poderá até ser provisória, a depender da evolução dos fatos. O novo diretor-geral da PF é Rolando Alexandre de Souza, homem próximo a Ramagem e, portanto, da confiança presidencial. Essa confiança foi reforçada já no primeiro ato do novo titular da instituição – ele mudou o comando no Rio de Janeiro, área de interesse direto da família Bolsonaro.
Por ora, o Planalto mantém o controle da situação, mas o quadro geral segue movediço. De todo modo, a presidência tem hoje uma Polícia Federal para chamar de sua.
