Um acadêmico brasileiro que investiga o comportamento digital dos apoiantes do presidente da República, Jair Bolsonaro, apresentou queixa no FBI e na polícia brasileira depois de receber uma ameaça de morte.
David Nemer, professor titular e pesquisador no Departamento de Estudos de Media na Universidade da Virgínia, especialista em Antropologia da Informática e autor do livro “Favela Digital: O outro lado da tecnologia”, esteve por quase um ano inserido em quatro grupos de WhatsApp de apoiantes de Bolsonaro para entender o seu funcionamento, segundo informou o Diário de Notícias, de Portugal.
Desde então, recebe com frequências insultos, mas por duas vezes, uma em dezembro e outra na semana passada, o ataque foi mais ameaçador. “O esquerdista tem família no Brasil, né?”, perguntou o autor da última, junto a duas fotos de armas. “Recebi umas mensagens esquisitas no Instagram, com fotos de armas e ameaças de morte e obedeci desde logo ao protocolo nestes casos, denunciei nas redes sociais, apresentei queixas, na polícia brasileira e ao FBI, e falei com os media tradicionais”, conta Nemer, 35 anos, ao DN.
“Soube, entretanto, que mais três pessoas que, como eu, têm por hábito conversar com a imprensa para artigos ou assinam mesmo colunas em jornais, receberam ameaças semelhantes, com foto igual e textos diferentes, mas preferiram não divulgar”.
“O que motivou, penso eu, foi uma entrevista que dei ao portal UOL sobre o Parler”. Nela, o pesquisador dissera que essa rede social, a nova febre entre os conservadores, é menos equilibrada do que o Twitter. “Como a pessoa que me ameaçou questiona isso e me mandou uma entrevista do Jack Dorsey, CEO do Twitter, em que ele diz que a rede tem um viés de esquerda, acredito que foi esse o motivo”.
Já em dezembro Nemer fora obrigado a voltar à pressa para os Estados Unidos depois de receber um email anónimo com a palavra “cuidado” a acompanhar uma fotografia sua no Parque Ibirapuera, no centro de São Paulo, onde estivera dias antes.
Desde 2017 – ano anterior à eleição de Bolsonaro – a organização Scholars at Riskrecebeu 41 pedidos de ajuda de pesquisadores querendo sair do país para se proteger. O número de intimidados, porém, é maior, revelava reportagem do jornal Correio Braziliense, em março.
