O assunto não é propriamente novo, mas é necessário abordá-lo mais uma vez. Falamos aqui de uma das características do estilo de governar de Jair Bolsonaro – desde sua posse, no início de 2019, ele cultiva o hábito de queimar em público colaboradores que o contrariaram, não importando o motivo. O nome disso é fritura, pura e simples.
Exemplos não faltam. Peça fundamental da campanha presidencial, Gustavo Bebianno, já falecido, foi afastado após desavenças com a família Bolsonaro. Situação semelhante viveu o general Santos Cruz, que inclusive fazia um bom trabalho à frente da secretaria de Governo.
Mais emblemáticos foram os casos de Sérgio Moro (Justiça) e Luiz Henrique Mandetta (Saúde). O primeiro encarnava para parcela significativa do eleitorado o combate à corrupção. Mandetta, por seu turno, se destacou no combate aos efeitos da pandemia. Os holofotes sobre os dois irritaram o presidente, e as demissões foram inevitáveis. Há ainda o caso de Nelson Teich, o breve, que ficou poucas semanas como substituto de Mandetta na Saúde.
Agora, é a vez do ministro da Economia, Paulo Guedes, experimentar a frigideira presidencial. O então todo poderoso czar da política econômica, o “Posto Ipiranga”, prova do mesmo veneno de seus ex-colegas de Esplanada.
O problema central é que Guedes não entregou o prometido em campanha. A economia segue claudicante, quadro agravado, é claro, pela pandemia. Mas a figura do super-ministro fica severamente afetada. Mais ainda, os poucos acertos na seara econômica se deram muito em função da atuação das lideranças parlamentares – a reforma da Previdência está aí como prova.
Pior para Guedes, agora ele se vê pressionado a abrir o cofre, contrariando o que pregava até recentemente. O presidente Bolsonaro antecipou a campanha de sua reeleição, e isso tem custos elevados. O “Pró-Brasil”, o suposto “Plano Marshall” brasileiro gestado perto do gabinete do ministro, tira o sono do titular da Economia.
Eventuais nomes de substitutos a Guedes não faltam, mas isso importa menos. O fato é que o governo sinaliza com mais gastança, em um momento de aperto fiscal. Além disso, fica claro que, na cabeça de Bolsonaro, não existe ministro intocável. Outras cabeças devem rolar.
