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Os interesses dos Estados Unidos por trás das eleições bolivianas

presidenta da Bolívia, Jeanine Añez

Jeanine Áñez avisou pela rede social que estava sendo presa por perseguição política/Arquivo

Texto de Marcelo Rech

No dia 18 de outubro, serão realizadas as eleições presidenciais na Bolívia que poderão devolver o Movimento ao Socialismo, partido do ex-presidente Evo Morales, ao poder. Após dois adiamentos, o processo tem como pano de fundo, a invalidade das eleições anteriores que levaram a protestos intensos no país em 2019 e ocasionaram a renúncia de Morales, então eleito para um quarto mandato.

A formação de um governo interino recebeu o apoio imediato dos Estados Unidos e do Brasil e a presidente Jeanine Áñéz tentava manter-se no poder. Diante dos baixos índices nas pesquisas, ela abandonou o processo em favor de Carlos Mesa, ex-presidente. Hoje, outros nomes da direita têm sido pressionados por Washington para que façam o mesmo.

Luis Fernando Camacho, líder dos protestos que antecederam à queda de Morales e favorito em Santa Cruz, a segunda região com mais eleitores do país, e o ex-presidente direitista Jorge Quiroga, já sofrem o acosso norte-americano. Camacho está em terceiro com 13% e Quiroga, em quinto com apenas 1,6% das intenções de voto, acabou sucumbindo e desistiu em favor de Mesa.

Os Estados Unidos temem que a esquerda vença o pleito já no primeiro turno. Apesar da rejeição popular ao projeto de reeleição de Evo Morales, derrotado em referendo em 2016, o seu candidato, o ex-ministro Luis Arce, lidera todas as pesquisas eleitorais e pode vencer ainda no primeiro turno.

Neste momento, Arce conta com 34% da preferência eleitoral. Seu adversário mais forte, Carlos Mesa, está na casa dos 27%. De acordo com a lei boliviana o candidato que tiver 40% dos votos, desde que a margem para o segundo colocado seja superior aos 10 pontos percentuais, será eleito em primeiro turno.

A Bolívia é estratégica para os Estados Unidos, não apenas por conta da produção de drogas, mas também por suas reservas de petróleo e gás. Além disso, Argentina, Bolívia e Chile, respondem por 68% das reservas mundiais de lítio, fundamental para a fabricação de baterias e eletrônicos em geral. Um total de 30% dessas reservas está na Bolívia.

A esquerda do país assegura que o governo dos Estados Unidos atua na Bolívia da mesma forma que o faz contra a Venezuela, instigando os protestos e deslegitimando e desacreditando aqueles que apoiam o MAS e o candidato de Evo Morales. Washington também estaria por trás das pressões que inabilitaram o ex-presidente e o impediram de concorrer ao Senado boliviano.

Além disso, a Casa Branca aspira conduzir ao poder o ex-presidente Carlos Mesa com o objetivo de fortalecer os seus objetivos na América Latina, bem como utilizar um candidato pró-americano como agente de influência para atuar também em um possível golpe de Estado na Venezuela, beneficiando Juan Guaidó.

Mesa era o vice-presidente da Bolívia quando, em 17 de outubro de 2003, assumiu o poder no lugar de Gonzalo Sánchez de Lozada, que abandonou o país em um voo para Miami. Jornalista e historiador, ele assumiu com a renúncia do presidente após semanas de protestos e um massacre que deixou mais de 70 mortos.

No entanto, Carlos Mesa é muito forte nas cidades, enquanto Arce é quase imbatível na zona rural do país. E o MAS conta ainda com os bolivianos que residem no exterior. No total, 341 mil bolivianos votarão em 86 cidades de 33 países.

A Argentina, país que abrigou Evo Morales como asilado político, reúne o principal contingente de eleitores. São 161 mil os habilitados para votar no país. Na Espanha, votarão 72 mil bolivianos, enquanto que no Brasil, serão 45 mil, 30 mil no Chile e quase 15 mil nos Estados Unidos. Esses eleitores jogarão um papel determinante no processo que poderá marcar o retorno da esquerda ao poder ou cristalizar ainda mais a influência norte-americana na região.

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