Como as demais polícias militares, a PMDF não está imune às interferências bolsonaristas
Daqui a duas semanas a população de Brasília não irá assistir ao tradicional desfile cívico-militar em homenagem à Independência da República. Este é o segundo ano em que as tropas das Forças Armadas e as forças auxiliares deixarão de passar pela Esplanada dos Ministérios. A razão oficial é que o evento foi cancelado por causa da pandemia da Covid-19.
A novidade deste ano no 7 de Setembro são as manifestações políticas convocadas pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Caminhoneiros e aliados bolsonaristas prometem tomar a Esplanada e ocupar a Praça dos Três Poderes. Em nome de um pauta de direita, os manifestantes também fazem ameaças às instituições.
No cerne dos protestos, críticas ácidas contra os ministros do Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. O clima de tensão está aquecido. Do lado da oposição, a análise é de um golpe institucional contra a democracia.
É neste ambiente que a Polícia Militar do Distrito Federal terá que cumprir seu papel de manter a ordem, o respeito às regras, às leis e à Constituição Federal. Com efetivo de cerca de 10 mil homens e mulheres, a corporação se divide politicamente entre 9 mil praças e quase mil oficiais subalternos e superiores.
Como as demais polícias militares dos estados, a PMDF não está imune às interferências políticas e partidárias. O bolsonarismo tremula como a principal bandeira que envolve os praças e os oficiais. Há quem garanta que o pensamento político dividiu a tropa. O equilíbrio dessa balança comeóu com o desastrosa de combate da pandemia do governo Bolsonaro. A negligência com a vacina espantou muitos simpatizantes.
A Polícia Militar do DF não escapa de uma onda partidária que já dura algum tempo. Nas eleições de 2018, por exemplo, houve um aumento de 44% de integrantes das Forças Armadas na disputa eleitoral — 87% vinculados aos partidos de direita.
O número de policiais e militares eleitos para as assembleias, para a Câmara e para o Senado saltou de 18 para 73, dos quais 58,9% filiados ao PSL. Atualmente Jair Bolsonaro não está mais ligado ao partido, mas seu legado continua na legenda.
“Os militares, principalmente a Polícia Militar, têm lado no jogo político do Brasil. Eles não são mais instituições de Estado, estão se comportando como instituições de política e isso corrói a credibilidade que a sociedade tem nas polícias e nas instituições militares”, comentou há dois anos o professor da Fundação Getúlio Vargas, Rafael Alcadipani.
Entre a associação e o policiamento
Nesta manhã, o presidente da Associação dos Oficiais da Polícia Militar do DF, coronel Eduardo Naime, concordou que a corporação tem suas tendências políticas. “O policial militar é um cidadão, sujeito a direitos e deveres. Mas não pode confundir com as ações institucionais da polícia. Temos policiais que defendem direita e esquerda”, comentou o oficial da ativa.
O coronel exercita o equilíbrio retórico num momento tenso da política nacional. Além de representar sua classe e as diferenças políticas inerente a um líder associativo, Eduardo Naime tem uma tarefa espinhosa pela frente. Ele é o comandante de operações da PM e no fundo é o responsável pela garantia da ordem no dia 7 de Setembro.
O cenário desenhado pelo coronel é da manutenção da disciplina e da ordem. E as manifestações? “Vamos agir no dia 7 balizado nos limites legais”, garante.
A pergunta tem seu motivo. Além dos caminhoneiros, incluindo o episódio do cantor Sérgio Reis e as buscas e apreensões realizadas por determinação do Supremo Tribunal Federal, o movimento bolsonarista é incitado por militares da ativa, numa evidente quebra do regimento interno.
Nesta manhã, o chefe do Comando de Policiamento do Interior-7 (CPI-7), em São Paulo, coronel Aleksander Lacerda, foi afastado das funções. Usou as redes sociais para incitar os bolsonaristas.
Depois, parlamentares militares foram às redes sociais para atacar o governador João Dória (PSDB), que determinou a punição. Na lista dos críticos estão o coronel Vieira Neto, o coronel Tadeu e o Capitão Derrite, todos com muitos seguidos no Twitter e no Instagram.
O diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, afirma que há uma politização excessiva nas polícias, principalmente na Polícia Militar. “A atitude do comando-geral da PM é muito importante para controlar essa tentativa de avanço bolsonarista nas polícias militares”, comentou o jornalista Merval Pereira.
Farda e santinho sem quarentena
As corporações partidárias chegaram ao Congresso Nacional de maneira definitiva. Em janeiro, dois projetos de lei orgânica das polícias civil e militar, que restringem o poder de governadores sobre braços armados dos Estados e do Distrito Federal, causaram muitos debates.
As propostas trazem mudanças na estrutura das polícias, como a criação da patente de general, hoje exclusiva das Forças Armadas, para PMs, e de um Conselho Nacional de Polícia Civil ligado à União; além do mandato de dois anos para comandantes, lembra a mídia.
O novo modelo é defendido por aliados do governo e é proposto no momento em que o presidente Jair Bolsonaro endurece o discurso da segurança pública tentando melhorar sua popularidade. A tramitação chegou a provocar reação de militares da cúpula das Forças Armadas, que rejeitam status de general para PMs.
O falecido senador Major Olímpio (PSL-SP) comentou, à época, que as propostas não ferem o pacto federativo e têm o papel de proteger as polícias de serem “desfiguradas por interesses político-partidários” nos Estados.
A questão da quarentena dos militares para entrar na política também deveria entrar no debate. Inglaterra, França e Estados Unidos têm regras. Os militares cumprem uma quarentena e depois que disputam a eleição, não podem retornar às fileiras das corporações. No Brasil não há regras. Disputam as eleições e podem voltar a vestir a farda.
