Propostas soluções baseadas em cinco frentes, inclusive para a produção de alimentos
Com a população global projetada para chegar a quase 10 bilhões de habitantes até 2050, a demanda por alimentos – bem como a terra e a energia necessária para produzi-los – deve chegar a níveis altíssimos.
Paralelo à essa urgência por comida, é preciso ainda promover o desenvolvimento econômico, proteger e restaurar as florestas e estabilizar o clima. Então, como criar um sistema alimentar tão abrangente sem causar mais danos ao planeta?
O último relatório do World Resources Institute (2019), denominado “Creating a Sustainable Food Future” (Criando um Futuro Alimentar Sustentável, em português) e divulgado pelo Banco Mundial, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, mostrou que a demanda por produtos de origem animal como carne, leite e ovos aumentará em quase 70% até meados do século.
Produzir essa quantidade de calorias adicionais em um ritmo mais rápido exigiria a conversão de quase 600 milhões de hectares (quase 1,5 bilhão de acres) de terras adicionais para uso agrícola. Isso demonstra o tamanho da área necessária para suprir essa quantidade de proteína animal e, obviamente, os rastros de destruição no meio ambiente e o volume das emissões de gases do efeito estufa (GEE).
Vale mencionar que algumas fontes de alimentos estão sendo consideradas para o futuro, com destaque para as microalgas, organismos fotossintetizantes com alta concentração de nutrientes e capazes de capturar e filtrar o dióxido de carbono da atmosfera. Estas plantas microscópicas contêm uma biomassa rica em proteínas, vitaminas e antioxidantes.
Apenas para citar um exemplo, a spirulina é uma microalga que já se encontra comercializada na forma desidratada – sendo um dos suplementos naturais mais completos disponíveis na natureza. Além dos humanos, esta microalga suplementa aves de corte e aquicultura.
Voltando ao relatório ‘Criando um Futuro Alimentar Sustentável’, foram propostas soluções baseadas em cinco frentes: reduzir o crescimento da demanda; aumentar a produção de alimentos sem expandir as terras agrícolas; aumentar a oferta de peixes; reduzir as emissões de gases de efeito estufa da produção agrícola; proteger e restaurar ecossistemas naturais.
Estas sugestões permitem que o mundo complete a lacuna entre os alimentos disponíveis hoje e os necessários até 2050, sem exigir mais terras para a agricultura e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões de GEE do sistema alimentar a um nível alinhado com o ‘Acordo de Paris’ sobre mudanças climáticas.
O desafio é suficientemente grande, no entanto, muitas soluções que envolvem inovações tecnológicas específicas podem ajudar a impulsionar a produção de alimentos e, ao mesmo tempo, controlar a poluição e as emissões responsáveis pelas mudanças climáticas que estão destruindo o planeta. Aqui estão 10 exemplos delas:
1. Carne vegetal
A carne bovina tem um dos maiores impactos sobre o uso da terra e as emissões de GEE do que qualquer alimento. Um avanço tecnológico que poderia reduzir o consumo de carne bovina são os produtos de base vegetal que imitam a experiência de comer carne, como os produtos da norte-americana Beyond Meat, por exemplo, que fornecem o sabor e os benefícios nutricionais da carne sem os impactos negativos ao meio ambiente.
2. Alimentos para peixes à base de algas
A aquicultura é uma maneira de garantir o estoque de peixes selvagens, mas pode aumentar a pressão sobre as pequenas espécies usadas como ração para espécies maiores, como o salmão, por exemplo. Uma inovação tecnológica para contornar esse desafio é criar alimentos substitutos usando algas marinhas ou sementes oleaginosas que contenham os ácidos graxos ômega-3. Algumas empresas já começaram a produzir alimentos à base de algas para a aquicultura.
3. Antigases para bovinos
Cerca de um terço das emissões de gases do efeito estufa do agronegócio são provenientes do metano entérico liberado principalmente pelos arrotos de bois e vacas. Vários grupos de pesquisa e empresas estão trabalhando em compostos para rações que suprimem a formação de metano no intestino de bovinos. Com resultado comprovado, algas marinhas incluídas na ração fazem com quem os animais reduzam em mais de 80% a emissão de metano.
4. Fertilizantes de baixa emissão
Cerca de 20% das emissões de GEE da produção agrícola estão relacionadas ao nitrogênio presente em fertilizantes e estrume em plantações e pastagens. Estão surgindo compostos eficazes, incluindo revestimentos de fertilizantes e os chamados “inibidores de nitrificação”, que reduzem a formação de óxido nitroso, levando a menores emissões e menos poluição da água pelo escoamento de fertilizantes.
5. Culturas que absorvem nitrogênio
Outra técnica para reduzir as emissões de óxido nitroso é desenvolver variedades de culturas que absorvam mais nitrogênio ou inibam a nitrificação. Pesquisas identificaram características para inibir a nitrificação em algumas das principais safras de grãos, que podem ser desenvolvidas por meio do melhoramento genético.
6. Vida útil prolongada para as frutas e vegetais
Cerca de um terço dos alimentos são perdidos ou desperdiçados até chegar à mesa. Um avanço para resolver esse desperdício é o surgimento de métodos baratos que retardam o amadurecimento de frutas e vegetais – algumas empresas já lançaram, por exemplo, filmes plásticos em spray, extremamente finos, que atrasam a decomposição e retêm água nas frutas.
7. Arroz com baixo teor de metano
Cerca de 15% das emissões de GEE da produção agrícola vêm de microrganismos decompostos nos arrozais. Os pesquisadores identificaram algumas variedades comuns de arroz que emitem menos metano do que outras e criaram em laboratório uma cepa que reduz as emissões deste gás em 30%.
8. Dendê de alto rendimento
O aumento na demanda por óleo de palma, base de produtos que vão de xampu a biscoitos, tem causado o desmatamento na Ásia por décadas e agora ameaça as florestas da África e da América Latina. Uma forma conter essa ameaça é o cultivo de dendezeiros com melhor produção do que as árvores convencionais. A empresa PT Smart, na Indonésia, já desenvolveu uma variedade de palmeira com o triplo do rendimento médio atual.
9. Energia solar
A produção de fertilizantes à base de nitrogênio usa grandes quantidades de combustíveis fósseis e gera emissões significativas – cerca de 85% das quais resultam da produção de hidrogênio para se misturar ao nitrogênio. Investir em tecnologias com energia solar pode ajudar a produzir fertilizantes com baixo teor de carbono. A energia solar também pode ser a solução para o armazenamento refrigerado inteligente, pois agricultores de muitas regiões em desenvolvimento não têm acesso à refrigeração, causa subjacente da perda de alimentos.
10. Usando CRISPR para aumentar a produtividade
Duas alternativas para um futuro alimentar sustentável envolvem o aumento da produtividade nas áreas agrícolas atuais e a produção de mais leite e carne nas pastagens existentes. Neste aspecto, a tecnologia CRISPR (sigla em inglês para Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas), ferramenta de edição genética que permite ligar e desligar genes de forma precisa, pode ser revolucionária.
