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Narrativa da esquerda: por que redizer o óbvio é essencial

Lula e lideranças da esquerda Misto Brasília

Representantes dos partidos da esquerda com o presidenciável Lula da SilvaArquivo//Divulgação

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Talvez tenha tido seu clímax na eleição de Lula da Silva, em 2002, mas o desfecho está longe de acontecer

Texto de Mayalu Felix

Resolvi fazer, neste artigo, a releitura de um anterior, que escrevi faz uns dois ou três anos, no qual considero a construção da narrativa da esquerda. Vale a perspectiva do escritor argentino Jorge Luís Borges, que sempre releu mais do que leu: “Creio que reler é mais importante do que ler”, disse ele numa palestra proferida na Universidade de Belgrano, em Buenos Aires, na década de 1970.

Neste momento, a releitura parte de uma necessidade: tento entender como um homem condenado na Justiça em três instâncias por corrupção passiva e lavagem de dinheiro surge na capa da revista Time como a solução para todos os problemas do Brasil – e, quando digo “do Brasil”, faço questão de inserir nosso país no atual contexto de crise, pandemia e desabastecimento mundiais. A narrativa perversa da esquerda tenta recriar Lula como uma espécie de teriaga – para usar uma palavra cara a Jorge Luís Borges – contra o próprio Lula da Silva.



Citando o estudioso da literatura e historiador Tzvetan Todorov, em As categorias da narrativa literária: “Ao nível mais geral, a obra literária (assim como qualquer narrativa) tem dois aspectos: ela é ao mesmo tempo uma história e um discurso. Ela é história, no sentido em que evoca uma certa realidade, acontecimentos que teriam ocorrido, personagens que, deste ponto de vista, se confundem com os da vida real.(…) Mas, a obra é ao mesmo tempo discurso: existe um narrador que relata a história; há diante dele um leitor que a percebe. Neste nível, não são os acontecimentos relatados que contam, mas a maneira pela qual o narrador nos fez conhecê-los.”.

A estrutura da narrativa da esquerda do Brasil talvez tenha tido seu clímax na eleição de Lula da Silva (PT), em 2002, mas o desfecho está longe de acontecer. O enredo não é linear: Marighela confunde-se com Marielle, Jean Wyllys toma para si o papel de “refugiado político” e imprime à sua atuação notas das décadas de 1960 e 1970 e outros déjà vus semelhantes. Os heróis já foram determinados: Lula, José Genoíno, Carlos Marighela, Jean Wyllys, Marielle Franco… E não é difícil identificá-los. Desde a escrita de O Capital, personagens da esquerda mundial ocupam lugares em reportagens, livros de história, filmes, canções populares, imaginário coletivo.

Não se trata apenas de “uma narrativa”, mas de uma que começou a ser construída com base no julgamento crítico de Karl Marx para posições ocupadas na sociedade de então. Desta forma, não falaríamos mais de pessoas, mas de funcionalidades, de arquétipos: o “capitalista malvado”, o “operário sofredor”, a “vanguarda messiânica”, o “guerrilheiro de bom coração” etc. Lula da Silva é o eterno operário-amigo-dos-pobres, não importa que tenha desviado bilhões de reais que deveriam ter ajudado esses pobres. Lula da Silva não se importa com a própria canalhice, atenuada por arranjos jurídicos, amenizada por reportagens, desmentida nas redes sociais, saudada por amigos artistas, irrelevante para companheiros de partido e ideologia.



Ao longo de mais de um século, os arquétipos da esquerda foram ocupados por sujeitos diferentes, mas a associação entre funções socioeconômicas e o respectivo julgamento de valor sempre foi feita. Chico Buarque talvez seja o compositor brasileiro que mais desenvolveu narrativas da esquerda em suas letras de canções. Criou o “operário sofredor”, em Construção; o “menor infrator de bons sentimentos”, em Meu Guri; o “capitalista malvado” x o “trabalhador explorado” em Deus lhe pague, o “contraventor bom caráter” em A ópera do malandro e por aí vai. Quase nunca lhe ocorreu compor a respeito de personagens reais, o que implicaria, entre outros aspectos, responsabilidade individual por escolhas, em vez de vitimização. Quase nunca lhe ocorreu cantar a dor das vítimas – do pai que perde o filho num assalto, por exemplo.

Mas, sem dúvida, o grande narrador, a voz do texto da história da esquerda é a mídia, que funciona como um (falso) narrador-observador, não participando dos acontecimentos. Os livros de história, posteriormente, assumem a função de narrador onisciente, que conhece até mesmo os pensamentos íntimos dos personagens. A grande mídia, contudo, se pretende noticiadora dos “fatos” quando eles ocorrem, enquanto veículos independentes gerariam “fake news”, posto que se desviam da agenda ideológica abraçada pelos mass media.

Sob esse viés, foi introduzido na história o personagem Zumbi dos Palmares, acerca do qual não pairava nenhuma dúvida: foi o grande herói do povo negro escravizado no Brasil. Sabemos que fatos dissonantes nunca fizeram parte da construção do perfil de Zumbi: tinha escravos, participou do assassinato do próprio tio, era um déspota. A literatura de José de Souza Martins (Ed. Civilização Brasileira, 2007) evidencia essas “falhas”, encobertas em favor da concepção de um arquétipo no inconsciente coletivo que teve seus efeitos na idealização do “movimento negro” brasileiro e de dezenas de ONGs que lhe são relativas. Do mesmo modo, a produção de leis que adaptassem a realidade institucional a esta e outras “evidências históricas” foi a consequência natural dessa narrativa: nasceram, dessa forma, a “política de cotas” e semelhantes.



Esquerda e direita e time de futebol

Os maiores criadores das narrativas da esquerda são a mídia, como observador contemporâneo e “imparcial” – sabemos, todos, os da esquerda e os da direita, que não há “mídia imparcial”, salvo quando ela nos serve – e os livros de história, por sua vez, que retomam os acontecimentos sob uma perspectiva “científica”, elaborando um discurso tampouco isento de marcas ideológicas.

O discurso da mídia é incessantemente analisado na área da Linguística. Há, inclusive, uma subárea específica dos estudos do discurso que se dedica a estudar, sob paradigma marxista, os textos dos jornais e da mídia. “Mídia imparcial” é algo tão sem sentido quanto “Justiça cega”, porque, no final das contas, quem se senta para escrever um texto ou analisar um processo não é máquina, mas ser humano cujos discurso e pensamentos foram concebidos, historicamente, sob uma égide ideológica. Mesmo que não haja “intencionalidade” no discurso, a ideologia permanece.

Isso não equivale a dizer que esquerda e direita são apenas times de futebol adversários, sem julgamento ético e moral sobre as ações de sujeitos de uma e de outra. Se a análise histórica é bem-feita, se há honestidade na análise dos dados, caem por terra 95% dos heróis esquerdistas, inclusive Lula – ou, sobretudo, Lula da Silva. Os 5% que sobram desta projeção estavam naquela narrativa por engano. De Stalin e Marighela, De Marx a Trotsky, de Che Guevara a Zumbi, de Mandela a Lula, nenhum deles foi exemplo de nada. Ao contrário, sua descrição messiânica não condiz com suas ações e interesses.



A grande mídia, neste momento, está empenhada em reconstruir a narrativa da trajetória do Lula da Silva. Ele é o herói injustiçado. Bolsonaro é o presidente despótico e corrupto. Brasileiros conservadores e liberais são “a direita fascista”. Artistas que já receberam milhões em benefícios estatais se apresentam como vítimas do tal “fascismo”.

Com base nessa narrativa, montaram cenário para as eleições deste ano, para as quais Lula já está “livre”. A narrativa da esquerda não é algo inocente, destituída de malícia: é a construção racional de uma história baseada sobretudo na ideia de que os governos de Lula foram as melhores coisas que já aconteceram ao Brasil, de que ninguém poderá superá-lo e de quem o critica é um inimigo do que ele e seus seguidores cultivam: a fraternidade, a igualdade, a justiça social, a democracia, a liberdade.

Nesse sentido, iniciativas que assumidamente não são de esquerda, na construção verbal de um mundo fora da perspectiva da esquerda, são essenciais para que se compreenda, não tardiamente, que Zumbi não foi um herói, que Che Guevara foi um assassino frio de civis inocentes, que Lula da Silva foi condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, entre outras acusações, em três instâncias diferentes, com fartura de provas – além de outras compreensões, tão necessárias. Canais alternativos de mídia, já caracterizados pelos narradores oficiais como difusores de “fake news”, tentam expor a verdade dos fatos sem a tendenciosidade ideológica da esquerda.



Disse e repito: é preciso estar atento ao gracejo midiático que faz de alguns pontos de vista marcados ideologicamente verdades absolutas. Entre o fato e as versões do fato há uma distância longa a se percorrer e é preciso ter cuidado com que narrativas estão sendo construídas sobre o Brasil neste momento: são essas histórias que vão ficar em nossas memórias.

Nunca é demais relembrar que a “Comissão da Verdade” jamais quis debater as mortes causadas pelos “revolucionários” e “guerrilheiros” socialistas. O tenente Mário Kozel Filho, para citar um exemplo, foi morto em um atentado da Vanguarda Popular Revolucionária em 1968. Para os narradores da história oficial da esquerda, ele nunca foi mais que dano colateral de um “processo revolucionário”. Ele jamais recebeu nem sequer uma nota de reconhecimento. Sua família nunca foi indenizada. Seus assassinos são considerados heróis e vítimas. Assim se constrói a narrativa da esquerda no Brasil.


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