Isso aí não é o 7 de setembro, mas é o que se tornou. Com o aprisionamento do Estado pelo governo
Por Vinício Carrilho Martinez e André Pereira César
Faz um ano, precisamente, nós escrevíamos aqui sobre o 7 de setembro. Lá como cá havia uma sombra, um fosso, a corrupção do ideário, a beligerância de quem sente prazer na dor pungente e na morte programada do povo. Método obscuro, típico do grupo ora no poder.
Isso aí não é o 7 de setembro, mas é o que se tornou. Com o aprisionamento do Estado pelo governo, pelo Palácio, nem os três Poderes são exatamente três. Na prática são dois, pois o Legislativo (feito refém do Centrão, pragmático como ninguém) é dócil e obediente ao Executivo. O Judiciário, sobretudo o Supremo Tribunal Federal (STF), tem parcelas de resistência – ainda que o país “terrivelmente evangélico” por lá também esteja representado. Uma importante trincheira ainda está aberta.
No geral, esse 7 de setembro reflete a mesma obra fascista de aprisionar o Estado, a fim de que se executem as obras do Fascismo Nacional. Apenas a título de exemplificação, dos terrivelmente evangélicos que anseiam por um Estado Teocrático – os laivos do Estado Islâmico são vistos a olhos vivos –, vejam que a Polícia Rodoviária Federal recebeu uma cartilha incitando (hoje) à leitura da Bíblia, mas que (amanhã) poderá vir a ser cultuada obrigatoriamente. Talvez seja questão de tempo, a depender da evolução dia fatos.
A função da polícia, de qualquer polícia – desde a Politia, na Grécia antiga – não é rezar ou abrir-se para ver Jesus na goiabeira. Até porque nem todos gostam de goiaba e, também, porque goiabas podem ter bichos em seu ventre.
A polícia tem por funções essenciais três tarefas óbvias: prevenção, investigação e repressão ao crime. Rezando ou não, é isso que o povo espera, é isso que manda a Constituição Federal de 1988. Além do mais, crentes ou não, o povo ateu – e de qualquer denominação religiosa – igualmente merece uma atenção institucional – dentro dos marcos legais. Tanto quanto o policial ateu tem todo o direito do mundo de pregar o ateísmo, desde que sua pregação não interfira em seu trabalho.
Em contexto semelhante, as demais secretarias e ministérios andam conclamando os servidores públicos a participarem do cercadinho do 7 de setembro. Por hábito, os e-mails do tal “sougov” estão destinados à lixeira – exatamente porque o lugar do lixo é no lixo, mesmo. Simples assim.
Outra corrupção monumental do ideário está na apropriação indébita do “verde e amarelo” (com ou sem o escudo da CBF) como cores do governo – quando, na verdade, são as cores da bandeira. Neste caso, é a Nação que se curvou ao Estado, tendo-se corrompido o ideário nacional de acordo com os interesses palacianos.
O Duce fez essa cartilha, na Itália fascista. O que temos aqui é cópia barata – turbinada por redes sociais –, porém, com desfecho anunciado (aos olhos abertos) de fracasso, farsa ou tragédia. Que é tudo farsa já sabemos faz muito tempo; resta-nos verificar se será um fracasso retumbante ou a tragédia – há muito anunciada, em verde e amarelo. Aguardemos os próximos capítulos.
Apenas para registrar: a trilogia “Subterrâneos da liberdade” (Os ásperos tempos, A agonia da noite, A luz no túnel), de Jorge Amado, passada no período do Estado Novo, guarda impressionante similaridade com o cenário brasileiro de 2022. Um texto absolutamente atual, que precisa ser (re)lido por todos aqueles que se preocupam com os destinos da Nação. A história se repete…e tanto se repete que a misoginia – enunciada no debate de ontem – ainda nos assombra com o barbarismo imoral, como massacrou uma “Teresa Batista Cansada de Guerra”, do mesmo clássico de Jorge Amado.
(Vinício Carrilho Martinez é cientista social e André Pereira César cientista político e articulista do Misto Brasília)
