Os filmes comentados abordam a política de diferentes maneiras e é uma introdução a esses dois temas fascinantes
Por André César – SP
Em meio aos questionamentos dos resultados eleitorais por parte de apoiadores mais radicais de Bolsonaro (uma minoria barulhenta entre os eleitores do presidente, diga-se), se faz necessário o reforço da educação política da sociedade. O cinema pode entrar como um instrumento para ajudar a qualificar o hoje empobrecido debate.
Os filmes rapidamente comentados abaixo abordam a política de diferentes maneiras. A lista não tem a pretensão de ser algo “definitivo” (longe disso) e o autor do artigo é apenas uma apaixonado pela sétima arte.
Há centenas de grandes obras cinematográficas sobre o tema, para todos os gostos. “A batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, está no panteão desses trabalhos. O filme aborda a luta do povo argelino pela libertação da França, no final dos anos cinquenta, uma crise que abalou a estrutura do Estado francês e deixou sequelas na sociedade daquele país. Realista ao extremo, é uma obra prima.
“A classe operária vai para o paraíso” (1971), de Elio Petri, conta a história de Lulu (Gian Maria Volonté, brilhante), operário que começa a questionar o sistema após sofrer um acidente de trabalho. O ambiente em sua fábrica fica cada vez mais tenso e a situação finalmente explode. Foi Palma de Ouro em Cannes.
Em “Todos os homens do presidente” (1976), de Alan J. Pakula, o escândalo de Watergate é dissecado. O fascinante é o processo de investigação dos jornalistas do Washington Post Bob Woodward e Carl Bernstein (Robert Redford e Dustin Hoffman, respectivamente) que, de um simples arrombamento a um escritório do Partido Democrata, levam o caso até o gabinete do então presidente Richard Nixon, que ao final renunciou ao cargo. Simplesmente fantástico.
“No” (2012), de Pablo Larrain, trata do plebiscito chileno de 1988 que culminou com o afastamento do ditador Augusto Pinochet. Um publicitário (Gael Garcia Bernal) desenvolve uma campanha que atrai o eleitorado mais jovem, fundamental para a derrocada do regime. Thriller impactante do início ao fim.
O genial Charles Chaplin não pode ficar de fora da lista. “Tempos modernos” (1936) e “O grande ditador” (1940) são trabalhos atemporais, duas aulas de cinema e de história. Humor que faz pensar.
Igualmente gênio, o diretor Stanley Kubrick conduziu “Dr. Fantástico” (1964), sobre as possíveis consequências quando um louco general anticomunista ordena que a União Soviética seja bombardeada. O destaque da comédia é Peter Sellers, em três papéis simultâneos. A cena final é antológica – mas sem spoiler, por favor.
O polêmico diretor Werner Herzog também não pode ser esquecido. Duas obras de sua autoria, “Aguirre, a cólera dos deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982), ambas com o eterno Klaus Kinski como protagonista, são obrigatórias para se entender a natureza humana em seus lados mais sombrios. Filmes únicos.
“Adeus, Lenin!” (2003), de Wolfgang Becker, é uma simpática comédia sobre um jovem que tenta evitar que sua mãe, que acabara de sair de um coma, saiba que sua amada Alemanha Oriental não existia mais. O filme recebeu críticas negativas por parte de setores mais à esquerda, mas vale muito ser visto.
Trabalho de fôlego, com mais de cinco horas de duração, “Carlos, o chacal” (2010), de Olivier Assayas, acabou convertido em uma minissérie de três partes. Trata-se da história do revolucionário venezuelano Ilich Ramirez Sanchéz, o Carlos, terrorista que por décadas foi caçado por todo o planeta. Filme de ação permanente, com excelente produção.
Por fim, no Brasil, “O que é isso, companheiro?” (1997), de Bruno Barreto, que conta a história do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, e “Terra em transe” (1967), de Glauber Rocha, sobre um país fictício chamado Eldorado, são obras que precisam ser vistas e (re)vistas, sempre. Nossa história, nossas questões, nossos dilemas.
A lista é um esboço e está longe, muito longe, de ser definitiva. Ela serve como uma introdução a esses dois temas fascinantes, cinema e política. Duas paixões.
