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Veja a carta de Malan, Bacha e Armínio Fraga para Lula da Silva

Lula da Silva discurso vitória Misto Brasília

Lula da Silva durante o discurso da vitória desta noite/Reprodução vídeo

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Os três economistas estão preocupados com a responsabilidade fiscal que parece não preocupar o futuro presidente

Uma carta aberta foi encaminhada na tarde desta quinta-feira (17) ao presidente eleito Lula da Silva (PT). Ela é assinada pelos economistas Pedro Malan, Armínio Fraga e Edmar Bacha, que foram os “pais” do Plano Real.



Eles mostram preocupações com a responsabilidade fiscal e também as críticas que Lula da Silva tem feito ao mercado financeiro. Os economistas sugerem ideias também para o problema social do Brasil. Veja a carta logo abaixo.

Ibovespa fechou em queda de 0,49%, aos 109.702,78 pontos, após uma sessão agitada, com o com o mercado reagindo a um discurso feito na véspera pelo presidente eleito. E também à minuta da chamada PEC do Estouro (Transição ou Bolsa Família).

Também repercutiu a notícia da saída do ex-ministro Guido Mantega da equipe de transição. O Misto Brasília foi um dos primeiros sites do país a divulgar a informação.



O dólar encerrou em alta de 0,45%, negociado a R$ 5,406.

De acordo com a CNN Brasil, deputados e senadores querem criar, na próxima semana, uma comissão mista informal para elaborar em conjunto uma nova versão da PEC do Estouro (Transição ou Bolsa Família).

Parlamentares que estão à frente das negociações disseram à CNN que a ideia é que o relator do Orçamento, senador Marcelo Castro (MDB-PI), assine a autoria da PEC original, mas que as 27 assinaturas necessárias para ela ser protocolada no Senado só sejam coletadas após a discussão na comissão informal.



Carta dos economistas encaminhada ao presidente eleito

Caro presidente eleito Lula,

Assistimos a sua fala nesta quinta (17) cedo na COP27, no Egito. Acredite que compartilhamos de suas preocupações sociais e civilizatórias, a sua razão de viver. Não dá para conviver com tanta pobreza, desigualdade e fome aqui no Brasil.

O desafio é tomar providências que não criem problemas maiores do que os que queremos resolver.

A alta do dólar e a queda da Bolsa não são produto da ação de um grupo de especuladores mal-intencionados. A responsabilidade fiscal não é um obstáculo ao nobre anseio de responsabilidade social, para já ou o quanto antes.

O teto de gastos não tira dinheiro da educação, da saúde, da cultura, para pagar juros a banqueiros gananciosos. Não é uma conspiração para desmontar a área social.

Vejamos por quê.

Uma economia depende de crédito para funcionar. O maior tomador de crédito na maioria dos países é o governo. No Brasil o governo paga taxas de juros altíssimas. Por quê? Porque não é percebido como um bom devedor. Seja pela via de um eventual calote direto, seja através da inflação, como ocorreu recentemente.

O mesmo receio que afeta as taxas de juros afeta também o dólar. Imagino que seja motivo de grande frustração ver isso tudo. Será que o seu histórico de disciplina fiscal basta? A verdade é que os discursos e nomeações recentes e a PEC (proposta de emenda à Constituição) ora em discussão sugerem que não basta. Desculpe-nos a franqueza. Como o senhor sabe, apoiamos a sua eleição e torcemos por um Brasil melhor e mais justo.

É preciso que se entenda que os juros, o dólar e a Bolsa são o produto das ações de todos na economia, dentro e fora do Brasil, sobretudo do próprio governo. Muita gente séria e trabalhadora, presidente.

É preciso que não nos esqueçamos que dólar alto significa certo arrocho salarial, causado pela inflação que vem a reboque. Sabemos disso há décadas. Os sindicatos sabem.

E também não custa lembrar que a Bolsa é hoje uma fonte relevante de capital para investimento real, canal esse que anda entupido.

São todos sintomas da perda de confiança na moeda nacional, cuja manifestação mais extrema é a escalada da inflação. Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres!

O setor financeiro recebe juros, sim, mas presta serviços e repassa boa parte dos juros para o resto da economia, que lá deposita seus recursos.

O teto, hoje a caminho de passar de furado a buraco aberto, foi uma tentativa de forçar uma organização de prioridades. Por que isso? Porque não dá para fazer tudo ao mesmo tempo sem pressionar os preços e os juros. O mundo aí fora está repleto de exemplos disso.

Então por que falta dinheiro para áreas de crucial impacto social? Porque, implícita ou explicitamente, não se dá prioridade a elas. Essa é a realidade, que precisa ser encarada com transparência e coragem.

O crédito público no Brasil está evaporando. Hora de tomar providências, sob pena de o povo outra vez tomar na cabeça.

Respeitosamente,
Arminio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan



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