A Unesco vem reconhecendo áreas com patrimônio geológico de importância internacional
Por Valentina Gindri – RJ
Podemos pisar em um solo alheios à riqueza e à história que ele carrega. Uma pedra pode ser só uma pedra, um morro, apenas um morro. Cabe ao espírito humano investigar e revestir o que nos cerca com conhecimento, enaltecendo seu valor e necessidade de preservação.
Com essa perspectiva, uma iniciativa da Unesco, chamada Geoparques Globais, vem reconhecendo áreas com patrimônio geológico de importância internacional.
O objetivo é explorar os vínculos da geologia com aspectos culturais locais, envolvendo as comunidades e promovendo o desenvolvimento econômico e a gestão sustentável das regiões.
Dezenas de outros territórios no Brasil possuem projetos de geoparque e trabalham para tornar-se Geoparque Aspirante, o último passo antes de serem reconhecidos.
Os territórios são reavaliados a cada quatro anos, e podem receber advertências amarelas e vermelhas e até perderem o título, caso deixem de cumprir com os critérios da instituição.
O Brasil possui cinco territórios com a certificação: Seridó, no Rio Grande do Norte, desde 2022; Caminhos dos Cânions do Sul, que estende-se por Santa Catarina e Rio Grande do Sul, desde 2022; Araripe, no Ceará, desde 2006; e os mais novos geoparques da Quarta Colônia e Caçapava do Sul, ambos no Rio Grande do Sul e incorporados à lista neste ano.
Essas regiões possuem atrativos geológicos e naturais exuberantes: fósseis de dinossauros que figuram entre os mais antigos do mundo, pterossauros com um estado único de conservação, o maior dinossauro pescoçudo do mundo, uma floresta de pinheiros petrificada do período Jurássico.
Dezenas de espécies de libélulas do período Neo Carbonífero fossilizadas, paleotocas feitas por preguiças gigantes, megafauna pleistocênica, registros rupestres de povos antigos, rocha vulcânica, derrame basáltico, rochas pré cambrianas e sedimentares, morros, picos, vales, cachoeiras, cânions, grutas, matas, rios, abundância de fauna e flora.
Além disso, têm vivas manifestações culturais interagindo com esses espaços: templos e monumentos religiosos, danças, festivais, lendas, folclore, peregrinações, música e encontros de etnias e diversas expressões gastronômicas.
“É uma nova forma de gestão territorial que tem no patrimônio geológico o ponta pé inicial para o desenvolvimento das regiões, seguindo a linha da sustentabilidade,” diz o coordenador científico do Seridó Geoparque Global da Unesco. Marcos Antonio Leite do Nascimento.
“Muita gente pensa que o geoparque é um espaço como um parque, em que se paga um ingresso e se entra em um local delimitado. Mas não é nada disso. É diferente de áreas de proteção ambiental, por exemplo, onde as pessoas não são pensadas. No fim, o que importa para o geoparque é o desenvolvimento das pessoas” afirma a geógrafa e vice-diretora do geoparque Quarta Colônia, Michele Vestena.
De olho no turismo e na cultura
A aposta das regiões que submeteram candidaturas a Geoparque Global Unesco é de que o título sirva de alavanca para o turismo. No Brasil, o ecoturismo foi responsável por uma em cada quatro viagens a lazer realizadas em 2021.
A administração dos geoparques é feita por consórcios de municípios, por secretarias municipais de Cultura e por universidades.
Cada geoparque é formado por dezenas de geossítios, que, em alguns casos, também podem ser parques estaduais, Áreas de Preservação Permanente, reservas ou espaços culturais regulados por outras instituições.
As leis de conservação seguem diretrizes nacionais vigentes e não se alteram com o título da Unesco. Alguns geossítios são de acesso totalmente livre, alguns têm entrada e circulação supervisionadas, alguns só podem ser visitados sob agendamento, e há ainda os reservados à pesquisa.
Na sua estratégia, o geoparque da Quarta Colônia estabeleceu uma rede que conta com mais de cem parceiros e amigos do geoparque, incluindo donos de restaurantes, pousadas e empreendedores, entre outros, com o intuito de formar um ecossistema de divulgação e conscientização sobre o geoparque que gere turismo e renda.
Muitos integram a rede produzindo itens para venda que carregam uma identidade do território.
“Incentivamos e educamos para que quem produz artesanato utilize os símbolos do geoparque. Uma toalha de prato, por exemplo, que ela seja feita ilustrando um patrimônio daqui, e não uma coisa aleatória. Passamos a ter pessoas que confeccionam amigurumis de dinossauros encontrados na região.”
(Valentina Gindri trabalha na Agência DW)
