Ata do Copom nesta quarta-feira dá sinais de que a pré-sinalização de cortes múltiplos não deva se sustentar na reunião de maio
Por Beto Saadia – SP
No Brasil, os dados sugerem que o esforço para reduzir a inflação seja mais complexo do que vinha sendo antecipado.
Do lado positivo, as commodities agrícolas registram forte queda no ano e o El Niño parece ter sido subestimado, já que a oferta de soja e milho vem se regularizando.
Por outro lado, o mercado de trabalho segue muito forte, tanto nas contratações como em salários. A massa salarial real tem crescido a um ritmo que não ajuda a desacelerar a inflação de serviços e acende uma luz amarela. Os holofotes estão todos voltados para os serviços subjacentes nas próximas leituras de IPCA.
Mesmo já esperado a redução de juros na próxima reunião, estamos atentos a possível mudança da comunicação sobre as reuniões futuras, o chamado ‘forward guidance’. Ele deve ser mantido na próxima reunião, mas parece razoável que a Ata do Copom dê sinais de que essa pré-sinalização de cortes múltiplos não deva se sustentar na reunião de maio.
Os atuais ciclos econômicos de Brasil e Estados Unidos guardam semelhanças: o mercado de trabalho apertado e atividade forte trazem questionamento sobre o quão restritivas de fato estão as taxas de juros em ambos os países, com impactos na discussão do juro terminal.
No Brasil, contudo, esse debate parece que será novamente postergado com a dinâmica benigna dos preços de alimentos e a postergação do debate sobre mudança de meta fiscal. O cenário desafiador poderia ficar para 2025, com o BC já sob nova direção.
O que apareceu de relevante no Brasil foi a queda da popularidade do presidente e a nossa impressão foi que a reação do presidente é voltar com discursos e atos populistas. Entre eles, voltou a falar mal do Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, interferiu nos dividendos da Petrobras (a intervenção na Petrobras foi a primeira intervenção concreta e vitoriosa do governo) e vocalizou a necessidade de reduzir o preço de combustíveis. Além disso, o presidente também coordena um plano de redução das passagens aéreas para os mais pobres usando recursos do BNDES.
A Zona do Euro e os EUA estão ambos em processo de queda da inflação, mas com uma diferença: os EUA seguem crescendo 2 a 3%, enquanto a Europa está estagnada, competindo com China e com preços caros de energia.
O mês de fevereiro foi dominado por uma nova rodada de dados mais fortes nos EUA e, principalmente, pela revisão do ciclo de queda pelo Fed, com as taxas de juros de curto prazo nos EUA subindo quase 0,70%. Ao contrário de outros momentos, a bolsa nos EUA teve um desempenho forte, subindo mais de 5%.
Todo o mercado e os Bancos Centrais ao redor do mundo acompanham de perto os próximos passos do Fed para se posicionarem.
A inflação, que vinha desacelerando desde setembro do ano passado e chegou a rodar praticamente na meta do Fed, teve um mês de forte alta e uma composição preocupante, com serviços mais pressionados.
Outra possível explicação para o menor otimismo recente com os juros nos Estados Unidos vem da piora na perspectiva fiscal do país. Em janeiro/2024, o déficit nominal americano dos últimos 12 meses alcançou 6,5% do PIB, vindo de 6,2% em 2023 e 5,3% em 2022.
Com isso, no final de fevereiro, a dívida pública total americana alcançou quase US$ 34,5 Tri, e tem aumentado US$ 1 Tri a cada 100 dias, em média. Tal expansão fiscal e consequente aumento do endividamento prejudica a capacidade de financiamento do governo americano, aumentando a preocupação com a convergência da inflação, levando os títulos a precisarem oferecer juros mais altos.
(Beto Saadia é economista e diretor de investimentos da Nomos)
