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Veículos autônomos mais humanos para reduzir danos em acidentes

Veículos autônomos uso do celular Misto Brasil

o uso de veículos autônomos pode ajudar a reduzir o número de acidentes/Arquivo/Nakata

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Nos tornamos viciados em telas que pouco se importam com a vida de terceiros. Descobrimos que a mensagem é mais importante

Por Charles Machado – SC

O imprudente uso de celulares ao volante, com traços de epidemia, que coloca em risco a vida de pedestres, cliclistas e demais ocupantes dos veículos, nos leva a seguinte indagação: Se campanhas de conscientização, multas pouco reduzem o vício de grudar nas telas dos celulares na condução de carros e motos, o que poderíamos fazer?

Estamos diante de uma epidemia de falta de empatia para com o próximo? Nos tornamos viciados em telas que pouco se importam com a vida de terceiros, pois descobrimos que ver a mensagem do grupo é mais importante do que a vida alheia?

A mesma tecnologia que hoje coloca vida em riscos pode ser a solução, como no caso do crescente uso de carros autônomos, dotados de sensibilidade social.

Sim, carros autônomos que respondem de maneira mais semelhante aos seres humanos podem causar menos danos em acidentes de trânsito, de acordo com um estudo recente. A pesquisa sugere que esses veículos, treinados para reagir ao perigo com “sensibilidade social”, oferecem maior proteção a grupos vulneráveis, como ciclistas, pedestres e motociclistas.

O conceito de “sensibilidade social” refere-se à capacidade dos veículos autônomos de avaliar o impacto coletivo de vários perigos, priorizando a proteção de usuários mais vulneráveis. Essa abordagem foi destacada no estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, e reflete os esforços crescentes para equilibrar eficiência operacional com segurança em situações de colisão.

O estudo surge em um contexto de avanços acelerados por empresas como Tesla, Waymo (do Google) e Zoox (da Amazon), que se dedicam a lançar veículos autônomos globalmente. Esses veículos utilizam sensores e programas automatizados para operar sem intervenção humana, mas enfrentam dilemas éticos significativos.

“Representação sucessora”

Um dos maiores desafios é treinar os sistemas para responder instantaneamente a cenários complexos, como decidir com o que ou quem colidir em situações de acidente inevitável.

A ética dos veículos autônomos tem gerado crescente interesse, dada a promessa de eliminar erros humanos, como cálculos imprecisos e fadiga, ao mesmo tempo em que se minimizam os impactos de acidentes, além é claro da distração ao celular, que é a maior causa de muitas colisões.

Segundo os autores desse estudo, liderado por Hongliang Lu da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, métodos comportamentais podem ser a base para um trânsito mais humano.

A pesquisa baseia-se em dados da neurociência e ciência comportamental que mostram como os humanos usam um “mapa cognitivo” para interpretar o mundo à sua volta e tomar decisões.

Com base na preocupação social e na codificação cognitiva plausível para humanos, é possível que veículos autônomos mostrem sensibilidade social na tomada de decisões éticas.

Os cientistas basearam suas instruções para veículos autônomos em um conceito conhecido como “representação sucessora”, que codifica previsões sobre como diferentes elementos de um ambiente se inter-relacionarão no tempo e no espaço.

Eles examinaram os resultados da aplicação de seu modelo ao EthicalPlanner, um sistema que os veículos autônomos usam para tomar decisões com base em várias considerações de risco.

Para chegar em um melhor resultado, os pesquisadores modelaram 2 mil cenários de linha de base, medindo o risco total de cada um, avaliando a probabilidade de colisão e a provável gravidade dos danos às pessoas envolvidas.

Os cientistas descobriram que o uso de seu modelo inspirado no ser humano com o EthicalPlanner reduziu os riscos gerais para todas as partes em 26,3% e em 22,9% para usuários vulneráveis da estrada, em comparação com o uso do EthicalPlanner sozinho.

Nas situações de colisão, todos os utentes da estrada sofreram menos 17,6% de danos, percentagem que aumentou para 51,7% no caso dos utentes vulneráveis. Os ocupantes de veículos autônomos também se saíram melhor, sofrendo 8,3% menos danos.

Claro que é apenas o início, e claro também que a indústria de celulares e aplicativos poderia fazer a sua parte, colocando limitações as redes sociais para celulares de condutores de veículo no momento que estão conduzindo, bastando vincular o celular do motorista ao controle de uso do carro.

As soluções tecnológicas já existem, bem como a legislação, falta um pouco de vontade política, consciência e sensibilidade, algo difícil de alcançarmos quando a lógica das big techs segue sendo de prender a atenção dos seus usuários, estando eles sentados no sofá da sala ou conduzindo motos e carros, ou por acaso existe algo mais aterrorizante do que motociclistas digitando mensagens enquanto conduzem velozmente pelos corredores das cidades?

É preciso ter consciência de que celular ao volante, é potencialmente um risco a vida sua e dos outros.

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