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Nova tarifa impõe incertezas para a economia nacional

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A nova rota vai facilitar o transporte de mercadorias entre a China e o Brasil/Arquivo/MinPortos

Setores como petróleo, exportação de aeronaves, ferro, aço, café in natura e carnes devem ser os mais afetados, segundo os analistas

Por Misto Brasil – DF

A nova tarifa anunciada pelos Estados Unidos é vista como um gesto político com pouco impacto prático, mas que pode provocar efeitos negativos no comércio exterior brasileiro, segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney.

Pouco efetiva para influenciar o Judiciário brasileiro, a medida impõe incertezas para setores estratégicos da economia nacional e pode contribuir para a revisão das projeções de crescimento.

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O anúncio foi feito nesta quarta-feira (09), por meio de uma carta endereçada ao presidente Lula da Silva, e publicada na rede Truth Social. Trump justificou a medida como retaliação tanto à “relação comercial muito injusta” com o Brasil quanto à acusação judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Trump ainda afirmou que os EUA vão iniciar uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil, com foco nas restrições impostas às atividades de empresas americanas no setor digital. A apuração, segundo ele, se justifica pelas “ações contínuas” do Brasil contra o comércio digital, o que adiciona um novo ponto de atrito à já delicada relação bilateral.

O professor de Relações Internacionais Eduardo Mello destaca a relevância do mercado americano para os exportadores nacionais e pondera que a medida pode representar um duro golpe para o comércio exterior do Brasil.

“O mercado dos Estados Unidos é muito grande e um alvo estratégico para muitos produtores brasileiros. Se essas tarifas forem realmente implementadas, o impacto será significativo”, afirma Mello.

O professor pondera que há incertezas quanto à efetivação da medida. “Trump já anunciou tarifas no passado que não chegaram a ser aplicadas, principalmente porque acabam afetando o próprio consumidor americano. Por isso, ainda será preciso aguardar.”

Para Jackson Campos, da AGL Cargo, a tarifa é uma ação “simbólica” com pouco efeito prático. “Ao vincular tarifas protecionistas norte-americanas a um julgamento no Brasil, o presidente Donald Trump sinaliza uma retaliação simbólica, mas que é totalmente ineficaz do ponto de vista prático”, afirma.

Segundo Campos, o Judiciário brasileiro é independente e não se submete a pressões externas, o que faz dessa medida um gesto mais voltado ao eleitorado interno de Trump do que à política comercial de fato.

“Quem perde é o povo americano, que nada tem com isso, e o empresário brasileiro, que terá que sobreviver com a insegurança jurídica e comercial”.

Humberto Aillon, especialista em gestão tributária na Fipecafi, aponta que setores como petróleo, exportação de aeronaves, ferro, aço, café in natura e carnes devem ser os mais afetados.

“Para o Brasil, a notícia é negativa, pois aumenta o custo de forma expressiva dos nossos produtos. O preço das ações de empresas impactadas será fortemente influenciado por uma possível redução nas vendas e demandas por novos pedidos”, afirma.

O economista ainda avalia que a investigação aberta pelos EUA é parte de uma estratégia de equilíbrio tarifário, que mira países com incentivos à exportação.

“Nada que não seja pautado em acordos definidos no passado. Mas, na prática, a principal punição para o Brasil será a majoração de tarifas e a consequente perda de atratividade dos nossos produtos na economia americana”, diz Aillon.

Júlio Miragaya, integrante da Comissão de Política Econômica do Cofecon, classifica a decisão de Trump como “um absurdo baseado em mentiras e intromissão”.

Segundo ele, trata-se de um ataque à soberania brasileira, com misturas indevidas entre política e comércio. “A imposição de tarifas com base em motivos políticos é vedada pelo direito comercial internacional”, alerta.

O mercado financeiro brasileiro reagiu imediatamente ao anúncio. O Ibovespa futuro com vencimento em agosto caiu 2,23%, enquanto o dólar futuro subiu 1,76%, negociado a R$ 5,58. O índice à vista fechou em queda de 1,3%, e o dólar comercial encerrou o dia a R$ 5,50, alta de 1,06%.

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