Misto Brasil

Nova guerra, agora entre Tailândia e Camboja

O conflito entre os dois países tem raízes desde a colonização/Arquivo

Especialistas afirmam que a crise fronteiriça entre os países tem como raiz o Tratado Franco-Siamês

Por Misto Brasil – DF

A relação entre Tailândia e Camboja vem se deteriorando desde maio, desde um confronto entre militares dos dois países em uma área de disputa na fronteira, que resultou na morte de um cambojano.

Em entrevista ao podcast Mundioka, especialistas afirmam que a crise fronteiriça entre os países tem como raiz o Tratado Franco-Siamês, assinado pela Tailândia durante a colonização francesa.

O episódio relembra antigos ressentimentos e desentendimentos com relação à demarcação da fronteira, que se encontra com o Laos, motivo de impasse desde 1907, durante o período colonial francês.

Valter Peixoto, fundador e apresentador do podcast MenteMundo, afirma que durante o período colonial, quando a Tailândia ainda era o antigo Reino do Sião, a França ocupou a região da Indochina, onde hoje é o Vietnã, e posteriormente os territórios do Laos e do Camboja, que na época também eram parte do Reino do Sião.

“A Tailândia antiga era onde a Tailândia é hoje mais Laos e Camboja. Mas ali eram reinos antigos também, que tinham uma história, um passado. Então a França acabou cooptando príncipes, reis locais, e pegou para ela um pedaço do território.

“[Foi] A condição para a Tailândia permanecer não sendo colonizada — é o único país do Sudeste Asiático que não foi colonizado, custou bons territórios para ela permanecer assim”.

Tailândia centro urbano Ásia Misto Brasil
Detalhe do centro de Bangkok, na Tailândia, que fica na Ásia/Arquivo/Divulgação

A partir da década de 1970, quando esses países adquiriram maior autonomia, a Tailândia reivindicou essa área da fronteira, mas em fóruns, não de maneira bélica. Bangkok sustentava que não reconhecia como válidos os limites do Tratado Franco-Siamês, afirmando que assinou o documento em 1907 por não ter opção.

O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) João Nicolini frisa que a rivalidade histórica entre os dois países do Sudeste Asiático, resquício do colonialismo francês, que vigorou até meados da Guerra Fria, já ocasionou tensões similares nos últimos 20 anos.

“[…] Assim como Índia e Paquistão, […] [ou] as questões do mar [do Sul] da China, todas as questões alguma hora esbarram no processo colonizador que aquela região sofreu”, comenta ele. “A tensão desses dois países é contínua, já envolvendo até a Corte Internacional de Justiça, que deu ganho de causa ao Camboja […]. Mas […] questões nacionalistas nunca são bem aceitas por Bangkok. Então o governo tailandês sempre reivindica aquele território.”

Em 1962, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) deu ganho de causa ao Camboja sobre a questão fronteiriça, tendo como base o Tratado Franco-Siamês, mas a decisão não arrefeceu os ânimos.

Peixoto lembra que em 2008 o Camboja propôs à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) tomar templos que havia nessa região, reanimando as tensões entre os dois países.

“Em 2008, eles viram que a Unesco ao reconhecer [a área como parte do Camboja], eles não teriam muito o que fazer. Então a fronteira ali foi militar, aumentaram postos militares, colocaram tanques, enfim, fizeram uma movimentação e acabou criando uma escaramuça, eles trocaram tiros, trocaram acusações, soldados chegaram a morrer”, afirma Peixoto.

Peixoto afirma que, diferentemente de outros conflitos envolvendo disputas territoriais em áreas que têm reservas de petróleo ou terras raras, o confronto entre Tailândia e Camboja é referente ao nacionalismo.

“O Camboja, eles se consideram como o Khmers, que foi um império muito poderoso que teve ali no século XV, antes de Sião ser poderoso, que é a Tailândia. Tanto que Sião ajuda a derrubar o Khmers e pega parte do território”.

“Foi quando os europeus chegaram. Então é uma coisa meio de nacionalismo, de identidade, principalmente para o povo cambojano, e isso que ativa os lados nacionalistas de parte a parte”.

De acordo com o professor da UFMG, a Tailândia, ciente de que o ganho de causa na Corte Internacional de Justiça desde 1962 é do Camboja, tenta ganhar uma disputa geopolítica militar, já que é mais bem equipada militarmente e economicamente muito maior que o Camboja.

“Em via de regra diplomática, se for valer regras multilaterais, a Tailândia tem que sair daquela região e desmilitarizar aquele campo por conta de decisões internacionais que já foram, enfim, referendadas […]”.

Para Peixoto, um motivo que pode levar a situação a escalar tão rapidamente neste ano é o fato de que os dois países atravessam crises política e econômica, e um conflito externo pode ser usado pelos governos locais para “conseguir se legitimar através do inimigo comum”.

A ASEAN seria o lugar certo para tratar da situação. Só que um dos pilares da ASEAN é o princípio da não intervenção, explica o especialista.

“Então acaba meio que […] atuando de forma dúbia, porque são países que foram colonizados, explorados, atacados. Então, quem pensar na ASEAN como, por exemplo, uma União Europeia, pode esquecer.”

Sair da versão mobile