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Ribeirinhos esperam a COP30 para ganhar dinheiro com o turismo

Belém ribeirinhos Charles Teles e Iracema Nascimento

O casal Charles Teles e Iracema Nascimento com a filha no espaço onde recebem turistas/Nádia Pontes/DW

As quatro comunidades da Ilha do Combu, cortadas por igarapés e onde o transporte só é de barco, preservaram a tradição ribeirinha

Por Misto Brasil – DF

No fundo do quintal onde Prazeres dos Santos cresceu, a sumaúma de aproximadamente 400 anos é um tesouro guardado para quem visita a Ilha do Combu.

A árvore símbolo da Amazônia é uma das poucas centenárias sobreviventes naquela porção de terra de 15 quilômetros quadrados, acumulada ao longo de milênios por sedimentos carregados pelo rio Guamá, registrou a reportagem de Nádia Pontes, da Agência DW.

A paisagem está separada por apenas 1,5 quilômetro da urbana Belém, capital do Pará. É de lá que dona Prazeres aguarda o boom de turistas nos próximos meses: são os participantes da Conferência do Clima, a COP30.

Com tantas propostas vindas de fora para que os moradores da ilha se adaptem ao fluxo extra, ela tenta manter as velhas regras.

“A gente não quer que as pessoas venham para cá e nos atropelem. A gente quer que elas nos visitem, entendam como vivemos, entendam esse modo de vida, valorizem nossa cultura e permitam que a gente permaneça neste território”, diz ao pé da sumaúma.

As quatro comunidades da Ilha do Combu, cortadas por igarapés e onde o transporte só é de barco, preservaram a tradição ribeirinha e agora querem apresentá-la ao mundo, resistindo como podem às seduções da gentrificação.

“Aqui existe uma população local que quer preservar suas culturas, manter seus costumes, que precisa ser respeitada, valorizada, entendida”, diz dona Prazeres.

Ela é uma das fundadoras do Comitê de Turismo Sustentável local, formado para discutir o que querem manter e o que desejam mudar. Eles tentam ser vistos neste momento em que o mundo se reúne na Amazônia para negociar um futuro com clima mais equilibrado.

De desmatador a guardião da mata

A sumaúma emblemática, de mais de 50 metros, passou incólume pelo passado de Charles Teles. Muitas outras árvores tombaram pelas mãos dele, que já foi conhecido como o maior operador de motosserra da ilha, que dizia estar sempre assombrado pelo medo de enlouquecer com o barulho que acompanhava o corte.

Até que um pedaço de madeira serrada mudou para sempre os rumos da vida dele.

“Eu via que a floresta estava indo embora, que eu estava perdendo minha saúde. Que exemplo estava dando para meus filhos? Eu sentia vontade de mudar”, conta Teles às margens do igarapé Piriquitaquara, onde mora com a família.

A tábua bonita cortada por ele causou admiração numa visitante, que o convidou para participar de uma feira de artesanato promovida pelo Sebrae. A oportunidade fez com que Teles deixasse de desmatar e levasse a família a cuidar da Amazônia viva.

No espaço onde vivem, eles recebem turistas interessados em conhecer as tradições ribeirinhas, caminhar na mata, tomar um banho de cheiro com ervas colhidas ali mesmo.

“A gente conta que na floresta existem pessoas que têm histórias muito bonitas, que são acolhedoras. A gente sente que eles levam saudade daqui e querem voltar”, conta Teles sobre o turismo de base comunitária que oferece no Combu.

Iracema Nascimento, nascida na ilha, trabalha ao lado do marido no resgate e preservação da cultura local. Ela diz que o número de visitantes aumentou bastante nos meses anteriores à COP, e espera que o debate diplomático de novembro traga efeitos práticos na vida deles também.

“A gente está sentindo na pele o que está acontecendo. A mudança climática mexeu com tudo e a gente está se reinventando para poder trabalhar. As frutas davam numa época, agora mudou tudo: a safra do açaí, a do cacau…”, conta Nascimento.

O restaurante de dona Prazeres, aberto para o almoço a partir de quinta, deve funcionar todos os dias durante a COP.

Parte do gás que usa para cozinhar é produzido ali mesmo, num biodigestor abastecido com resíduos orgânicos, como cascas e restos de comida. Garrafas descartáveis foram banidas, as bebidas são servidas em copos reutilizáveis. Com isso, a economia de lixo foi de mais de 5 mil garrafas até agora.

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