As fotos chocantes que circulam nos veículos de imprensa não são instrumentos visuais: são alertas urgentes
Por Daniela Kallas – SP
As imagens da matéria da BBC — crianças esqueléticas, olhares vazios, corpos que não suportam nem a fome nem os escombros são difíceis de ver. E devem ser. Mas são necessárias.
Em Gaza, a morte não está apenas nos bombardeios: ela também chega em doses lentas, pela escassez de água, comida, remédios, doenças, pela brutalidade invisível que os conflitos impõem.
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As fotos chocantes que circulam nos veículos de imprensa não são instrumentos visuais: são alertas urgentes. Revelam a morte causada por fome e sede, resultado de um bloqueio que reduz a população a consumir o equivalente a 245 calorias por dia, menos de 12 % do necessário diariamente, segundo Oxfam e OMS.
As marcas psicológicas de guerra e deslocamentos vêm acompanhadas de destruição ambiental: cerca de 68 % a 75 % dos terrenos agrícolas em Gaza foram danificados ou destruídos, inviabilizando alimentos, renda e resiliência local, segundo relatórios da FAO.
A ONU alerta que, em 2024, mais de 295 milhões de pessoas em 53 países enfrentaram fome aguda. Um relatório da força-tarefa da ONU-G20 destaca que a fome extrema se intensifica em 13 pontos críticos, incluindo Gaza, Sudão do Sul, Mali e Haiti, onde a guerra e a violência política interrompem o acesso a serviços essenciais.
Não se trata apenas de parar os combates, a guerra já está matando, e suas vítimas são as mais vulneráveis. Se já não bastassem os bombardeios, a inanição, as doenças instauradas pela fome, as feridas sem tratamento estão levando gente a morrer dia após dia.
A OMS alerta que essa crise em Gaza representa danos que vão muito além do físico imediato: trata-se de trauma epigenético, cognitivo e metabólico que pode condenar gerações inteiras ao atraso, instabilidade e à perpetuação da violência estrutural e da pobreza.
A guerra está viva. E não se manifesta só pelos tanques ou explosões, mas pela fome que leva ao colapso físico, mental e social de todo um povo. As declarações de cessar‑fogo são insuficientes enquanto a ajuda não chega, enquanto alimentos, água e dignidade forem usados como armas silenciosas.
É urgente: a comunidade internacional pode transformar choque em ação. É necessário garantir abastecimento seguro, reconstruir os sistemas dessas comunidades, apoiar sobreviventes e reconstruir vidas.
Porque a guerra mata hoje, e só enfrentando a fome, a escassez e os traumas gerados poderemos impedir que seu rastro de morte se estenda por gerações.
(Daniela Kallas é mestre em Direito Internacional e conselheira da VV Inteligência Humanitária e do SHE Institute)
