Músicos e bandas produziram farto material com manifestações políticas, como The Clash, Pink Floyd, Titãs e Plebe Rude
Por André César – DF
Abordaremos hoje um tema pouco explorado mas bastante instigante – a relação entre o rock’n’roll e a política. Falaremos de bandas e artistas solo que, de algum modo, politizaram atitudes e letras, questionando de maneira contundente o chamado “sistema”.
Gang of Four – clássica banda pós-punk formada em Leeds, Inglaterra, em meados dos anos setenta. Considerada por muitos a “mais politicamente motivada banda da história”, seu auge se deu entre 1977 e 1984, com reuniões esporádicas em anos posteriores.
Seu som era uma mistura de punk, dub e pitadas de funk. Cabe explicar o nome – Gang of Four era uma facção maoísta composta por quatro oficiais do Partido Comunista Chinês, entre eles Mao Zedong e Deng Xiaoping.
The Clash – em minha opinião, o principal nome da lista – a “única banda que importa”, segundo muitos críticos. Criada em Londres nos anos setenta, fazia um criativo mix de punk, reggae, dub, ska, rockabilly e um pouco de jazz. Seus dois álbuns clássicos são o duplo “London Calling”, considerado pela revista Rolling Stone o melhor disco dos anos 1980, e o triplo (!!) “Sandinista” (o nome diz tudo), vendido a preço de LP simples para desgosto da gravadora. Encerraram as atividades na segunda metade da década de oitenta.
Pink Floyd – banda seminal do rock, foi formada ainda nos anos sessenta em Londres. Inicialmente uma banda psicodélica, foi referência do rock progressivo e, em particular, três álbuns se destacam pelo conteúdo politico – “Animals” (1977), “The Wall” (1979) e “The Final Cut” (1983), os dois últimos com forte tom contra a guerra.
Em 2018, o ex-líder e principal compositor do conjunto, Roger Waters, causou polêmica no Brasil ao se posicionar contra o então candidato à presidência Jair Bolsonaro.
Rage Against The Machine – os californianos do RATM sempre se notabilizaram pelo posicionamento de esquerda e faziam uma mistura de heavy metal com hip-hop. Seu apogeu se deu entre 1991 e 2000 e a carreira foi marcada por forte ativismo, com críticas pesadas às politicas implementadas pelos governos norte-americanos.
O avô de um dos integrantes, o vocalista Zack de La Rocha, lutou na Revolução Mexicana da década de dez do século passado. O grupo chegou a apoiar o MST.
The Smiths – fundado em Manchester no início dos anos oitenta, foram um grande sucesso da cena independente britânica ao longo da década. Seu polêmico vocalista, Morrisey, sempre fazia declarações contra políticos de seu país e, em “Bigmouth strikes again”, um grande hit do álbum “The Queen is Dead”(1986), faz uma critica sarcástica à então primeira-ministra Margaret Thatcher. Depois, o cantor-compositor tornou-se uma espécie de auto-caricatura, adotando posturas extremamente conservadoras.
Dead Kennedys – original da Califórnia (SAN Francisco), fazia punk e hardcore. Seus dois grandes clássicos são os discos “Fresh Fruit for Rotten Vegetables” (1980) e “Bedtime for Democracy” (1986), com letras eminentemente políticas – “California Uber Alles” sintetiza o trabalho do grupo.
O vocalista, o carismático Jello Biafra, tornou-se ativista contra o Parents Music Resource Center, que defendia o controle dos pais para músicas consideradas “obscenas”. Biafra se candidatou a prefeito de San Francisco, ficando em quarto lugar entre dez postulantes.
Bad Religion – mais um californiano na lista (Los Angeles), tem como base o punk, o hardcore e o skate punk. Letras de caráter social marcam a história do conjunto. O maior sucesso é a canção “American Jesus” (1993), com uma pesada crítica contra o chamado “Destino Manifesto” – a ideia de superioridade dos norte-americanos, criada após a primeira guerra do Golfo, em 1991.
MC5 – como o próprio nome indica, trata-se de uma banda de Detroit, capital até há pouco tempo sede das grandes montadoras. Fundada em meados dos anos sessenta, fazia um som agressivo com pegada fortemente política e letras recheadas de palavrões, o que desagradava as gravadoras. No final da década, chamaram a atenção de integrantes dos Panteras Brancas (White Panther), reforçando ainda mais suas posições politizadas.
Encerraram a conturbada carreira no início dos anos setenta. Interessante observar que Detroit foi das cidades mais afetadas pela crise do subprime de 2008, com as montadoras reduzindo drasticamente a produção de automóveis – e o consequente aumento do desemprego na região.

De U2, John Lennon e a pegada dos brasileiros
U2 – falamos aqui dos primeiros discos da banda de Belfast (Irlanda do Norte), “Boy” (1980), “October” (1981) e “New Years Day” (1983). Clássicos absolutos como “Sunday Blood Sunday” fazem parte dessa safra, mas o vocalista Bono Vox ingressou em um lado messiânico, perdendo a pegada inicial. Mesmo assim, ele já foi indicado ao Nobel da Paz por seu trabalho em causas humanitárias.
John Lennon – o mais politizado dos Beatles destacou-se em especial na virada dos anos 1960 para setenta, quando lançou os hits “Give Peace a Chance” e “Merry Christmas (War is Over”) – essa última celebrizada por Simone em “então é Natal”…Depois, Lennon gravou mais alguns discos e afastou-se do mundo da música para cuidar da vida pessoal e familiar. Retornou em 1980 e logo foi assassinado por um fã, evento que chocou o mundo.
Titãs – os paulistanos Titãs produziram ao menos dois discos extremamente politizados, “Cabeça Dinossauro” (1986) e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” (1987), ambos recheados de clássicos como “Estado Violência”, “Polícia”, “Igreja”, “Lugar Nenhum” e “Nome aos Bois”. Hoje a banda, com formação reduzida, está mais para o mainstream, mas seu legado é inquestionável.
Plebe Rude – de Brasília, o grupo se notabilizou pelo EP “O Concreto já Rachou” (1986) e “Nunca Fomos tão Brasileiros” (1987). Às canções “Proteção” e “Segurança” são clássicos desse período e marcaram época, som pesado com letras que refletiam (refletem até hoje, na verdade) a realidade do país.
Garotos Podres – originado no ABC paulista, é um bom exemplo de banda de punk politizada ao extremo, com canções como “Subúrbio Operário”, “Anarquia Oi” e “Aos Fuzilados da CSN”, além do clássico “Papai Noel Velho Batuta”. Fizeram, inclusive, uma versão da Internacional Comunista.
Trata-se evidentemente de uma lista pessoal, sujeita a (muitas) críticas. Se você, leitor (a) também tem paixão por política e rock como esse humilde escriba, fale sobre seus artistas preferidos.