O Brasil poderá ter que negociar questões de segurança regional, como narcotráfico e migração, caso se confirme uma nova influência dos EUA
Por Misto Brasil – DF
A ação militar dos EUA contra Nicolás Maduro de sábado (03) pressiona a diplomacia brasileira num momento definidor da sua reaproximação com o governo do presidente Donald Trump. A intervenção em solo sul‑americano ameaça o plano declarado do Itamaraty de projetar liderança e estabilidade regional, enquanto seus diplomatas cumprem intensa agenda com contrapartes americanas para reverter sanções à economia brasileira.
Por um lado, há o interesse do presidente Lula da Silva em preservar a tradicional defesa brasileira do pragmatismo e soberania nacional. Por outro, o Planalto evita queimar pontes com a Casa Branca, da qual obteve vitórias contra o tarifaço no ano passado.
Agora, o Brasil poderá ter que negociar questões de segurança regional, como narcotráfico e migração, caso se confirme uma nova influência dos EUA sobre a política doméstica venezuelana. O dilema desafia a antiga defesa de Lula por uma política externa ancorada na autonomia regional, em contraposição ao alinhamento automático às grandes potências.
Ao abrir seu terceiro mandato, o petista anunciou que o Brasil havia retornado ao centro das negociações internacionais. Mas a campanha de Trump na América Latina tensiona o já limitado espaço de influência brasileiro.
“A posição brasileira fica em uma situação bastante delicada,” afirma Vinicius Teixeira, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e Doutor em Geopolítica, Defesa e Geografia Econômica.
“A ação dos EUA mostra que o Brasil não conseguiu, a partir do diálogo, exercer a sua posição de negociador, como sempre defende. Não demoveu os Estados Unidos da intenção de ataque à Venezuela.”
Sem escalada retórica
Para especialistas ouvidos pela DW, o Brasil repetirá sua postura imediata de condenar a violação da legislação internacional e enfatizar o risco de instabilidade para a região, mas sem promover uma escalada retórica que possa irritar os EUA ou personalizar a defesa de Maduro.
Como líder regional, o objetivo do Brasil será garantir um canal funcional com Washington para gerir efeitos colaterais na região, tema que deve entrar na pauta da eleição presidencial brasileira deste ano. O temor do governo é que os EUA ampliem sua postura intervencionista para outros países.
“A Casa Branca explicitou a intenção de reconstituir uma esfera de influência no hemisfério. Se os EUA partem do pressuposto de que ‘podem agir’ porque ninguém escalará para contê-los, o custo para o Brasil de um confronto direto com Washington sobe”, diz Bruna Santos, diretora do Programa Brasil do think tank Inter-American Dialogue.
“A diplomacia brasileira precisa, portanto, separar com precisão duas camadas: defesa de princípios da Carta da ONU e gestão pragmática do relacionamento com os EUA. O foco deve migrar de ‘defesa do governo’ para ‘defesa de regras’ e mitigação de danos regionais”, continua Santos.
Na resposta do governo brasileiro, divulgada pelo perfil de Lula nas redes sociais, o presidente apontou que o ataque dos EUA ultrapassa uma “linha inaceitável”, afronta de forma grave a soberania venezuelana e representa “precedente perigoso”. Sem citar Trump ou Maduro, argumentou que a ação “ameaça a preservação da região como zona de paz”.
Poucas horas após a prisão de Maduro, o texto foi calculado na esteira de uma reunião com representantes do Ministério da Defesa. O tom orientou ainda o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em uma reunião emergencial convocada pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) neste domingo, que terminou sem acordo entre os 33 membros.
No mesmo dia, um comunicado conjunto de Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai rechaçou “qualquer intenção de controle” sobre a Venezuela.
Ao ser ouvido na cúpula, porém, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, exigiu uma postura mais dura. “Calar-se diante dessa agressão equivale a endossá-la. A Celac não pode hesitar. Não pode se dividir entre condenações tímidas e silêncios cúmplices,” afirmou.
Tradição na diplomacia brasileira
Apesar do protesto, é de se esperar que o Brasil mantenha a postura menos incisiva caso se manifeste no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Uma reunião convocada pela Colômbia está prevista para segunda-feira (05/01).
“Desde a primeira manifestação do presidente, se observa uma defesa clara da soberania dos países latino-americanos e sul-americanos. Essa retórica tende a ser fortemente defendida pelo Itamaraty,” pontua Priscila Caneparo, doutora em Direito Internacional e professora do Unicuritiba.
Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o pronunciamento de Lula é comedido. “Não houve ataque direto aos Estados Unidos, e entendo que Washington espera exatamente isso do Brasil: que não haja uma crítica excessivamente dura”, avalia.
“Esse é um pressuposto histórico da diplomacia brasileira, e não seria diferente agora. Os Estados Unidos também têm consciência de que um conflito dessa natureza pode gerar pressão nas fronteiras do Brasil, além de possíveis crises sanitárias e humanitárias.”
O Brasil disse no sábado, horas depois da captura de Maduro, que já se preparava para um possível aumento do fluxo de refugiados venezuelanos.
