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Andar com a fezinha eu vou, mas ela costuma falhar

Jogos e loterias Misto Brasília

Novas loterias foram autorizadas para financiar o turismo e a saúde/Arquivo

Quando se observa esse placar do jogo, percebe-se que o resultado é que a sociedade brasileira está perdendo, pois a conta não fecha

Por Jefferson Marcondes Ferreira – SP

A busca por ganhos rápidos e “fáceis” através das fezinhas reflete as dificuldades de muitos brasileiros para fechar as contas do mês. O sonho, ou a ilusão de enriquecer com um toque no smartphone, aliado à incerteza econômica e às campanhas de marketing agressivas, transformou as BETs em negócios altamente lucrativos, porém prejudiciais à saúde física, mental e financeira da população.

De acordo com o dossiê “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, publicado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS ), vivemos hoje uma grave assimetria entre os agentes envolvidos.

De um lado, o setor de apostas, que em 2025 arrecadou R$ 6,8 bilhões, resultado de uma receita bruta de R$ 37 bilhões, impulsionada pela praticidade do jogo e por investimentos estimados em 1,4 bilhão de reais em publicidade nas redes sociais, streamings e TV aberta.

Do outro lado está a sociedade brasileira, que sofre danos sociais avaliados em R$ 38,8 bilhões anuais. Desse total, 78,8% dizem respeito a problemas como suicídio, depressão e conflitos familiares.

Além disso, os custos econômicos saltam aos olhos, pois em 2024, as apostas movimentaram cerca de 240 bilhões de reais, enquanto o varejo estima ter deixado de faturar R$ 103 bilhões.

Soma-se a isso o aumento da inadimplência e o atraso no ingresso de aproximadamente 34% dos jovens na universidade, devido aos gastos com jogos.

Quando se observa esse placar do jogo, percebe-se que o resultado é que a sociedade brasileira está perdendo, pois a conta não fecha: arrecadação de R$ 6,8 bilhões contra R$ 38,8 bilhões em prejuízos sociais. Vale ainda ressaltar que apenas 1% do valor arrecadado em BETs é destinado à saúde.

As regras desse jogo começaram a ser delineadas em 2018, quando as BETs passaram a operar legalmente no Brasil com a Lei 13.756/2018, posteriormente ampliada pela Lei 14.790/2023.

No entanto, o país ainda carece de normas mais robustas — especialmente no monitoramento da publicidade, no fortalecimento dos sistemas de autoexclusão, na fiscalização e na educação dos jovens sobre os riscos envolvidos.

Para reduzir essa assimetria, surgem propostas como as do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), que sugerem aprimoramentos nos autotestes de saúde mental e financeira, a criação de uma plataforma pública de autoexclusão, além da ampliação das redes de apoio e das campanhas de prevenção.

Assim, fica claro que a fezinha está longe de ser apenas um entretenimento. Em um cenário de incertezas econômicas e baixa educação financeira, as apostas frequentemente se transformam em risco socioeconômico.

Por isso, é fundamental que agentes públicos e privados atuem de maneira integrada, para que a fezinha volte a ser apenas uma diversão, e não uma ameaça ao bem-estar social do Brasil.

(Jefferson Marcondes Ferreira é economista professor da área de Economia na Uninter)

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