A morte confirmada ontem provocou uma onda de violência em 20 estados. Saiba como aconteceu a operação
Por Misto Brasil – DF
O Exército mexicano matou neste domingo (22) Nemesio Oseguera Cervantes, de 59 anos, conhecido como El Mencho, o narcotraficante mais poderoso do México e por quem os Estados Unidos ofereciam 15 milhões de dólares de recompensa.
O Exército comunicou que Oseguera Cervantes, fundador e líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), foi ferido durante uma operação realizada na localidade de Tapalpa, no estado de Jalisco (oeste), e morreu durante o transporte aéreo para a Cidade do México.
Após a morte de Oseguera Cervantes, homens armados deram início a uma onda de violência por todo o México e bloquearam estradas com carros incendiados em 20 estados mexicanos.
No total 34 criminosos foram mortos pelo Exército e pela Polícia. E 70 pessoas foram detidas, com 25 membros da Guarda Nacional sendo feridos ou mortos.
A operação contra Oseguera Cervantes ajudará o governo mexicano a mostrar resultados aos EUA, que pressionam o país vizinho a combater os cartéis de drogas com mais agressividade. Os Estados Unidos adicionaram o CJNG à sua lista de organizações terroristas em 2025.
Ambos os países afirmaram que a colaboração na troca de informações contribuiu para a operação deste domingo.
Como Oseguera Cervantes morreu
Oseguera Cervantes foi morto durante um confronto com tropas enviadas para capturá-lo, ocorrido quando integrantes de seu cartel tentavam repeli-las, comunicou o Ministério da Defesa do México.
Segundo o ministério, os militares lançaram uma operação em Tapalpa, a 130 quilômetros ao sul de Guadalajara, para capturar Oseguera Cervantes, envolvendo a Força Aérea Mexicana e forças especiais.
O cartel contra-atacou e, no confronto que se seguiu, as forças federais mataram quatro membros da organização criminosa e feriram gravemente outros três, que faleceram durante o transporte aéreo para a Cidade do México. Entre eles estava El Mencho.
Três soldados ficaram feridos e duas pessoas foram detidas na ação. Armas de grosso calibre e veículos blindados, incluindo lançadores de foguetes capazes de abater aeronaves, foram apreendidos no local.
Quem era El Mencho
Oseguera Cervantes, mais conhecido como El Mencho, tinha 59 anos e era o líder de um grupo criminoso em rápido crescimento, o Cartel Jalisco Nueva Generación. Ele era o narcotraficante mais procurado pelos Estados Unidos, que ofereciam uma recompensa de 15 milhões de dólares por sua captura.
Oseguera Cervantes era visto como o último dos chefões do narcotráfico que agiam no estilo ostentatório brutal de Joaquin “El Chapo” Guzman e Ismael “El Mayo” Zambada, ambos presos.
Oseguera Cervantes nasceu em Aguililla, uma cidade no estado mexicano de Michoacán, no oeste do país e a porta de entrada para uma região montanhosa e inóspita onde plantações ilegais de maconha prosperavam em sua infância.
Seus laços com o crime organizado remontavam a pelo menos três décadas. Quando jovem, emigrou para os Estados Unidos. Em 1994, ele foi julgado por tráfico de heroína nos EUA e condenado a três anos de prisão.
Ao retornar ao México, juntou-se ao Cártel del Milenio. Mais tarde, conflitos internos o forçaram a sair de Michoacán, quando uma facção se aliou a Los Zetas, um grupo fundado por ex-soldados de elite que impunham o terror em toda a região.
Oseguera refugiou-se no estado vizinho de Jalisco. Em 2009, com o cartel de Sinaloa, ele formou os Matazetas, que ganharam notoriedade dois anos depois com o assassinato de dezenas de pessoas ligadas ao grupo.
Por volta de 2009, Oseguera fundou o Cartel Jalisco Nueva Generación, que, com a extradição de Guzmán e Zambada para os Estados Unidos, tornou-se a organização criminosa de crescimento mais rápido do México, levando cocaína, metanfetamina, fentanil e migrantes para os Estados Unidos e inovando na violência com o uso de drones e dispositivos explosivos improvisados.
O cartel ganhou reputação por ataques ousados contra as forças de segurança mexicanas, incluindo a derrubada de um helicóptero militar em Jalisco em 2015 e uma tentativa espetacular, porém malsucedida, de assassinato do chefe de polícia da Cidade do México, Omar García Harfuch, que hoje é o secretário de segurança federal do México.
EUA repassaram informações
A operação de captura foi realizada com o apoio de informações dos Estados Unidos, segundo o Ministério da Defesa mexicano.
Uma nova força-tarefa liderada pelos militares dos EUA, especializada na coleta de informações sobre cartéis de drogas, desempenhou um papel na operação militar mexicana que resultou na morte de El Mencho, disseram funcionários de defesa dos EUA à agência de notícias Reuters e ao jornal The Washington Post.
A Força-Tarefa Interagências Conjunta de Combate aos Cartéis (JIATF-CC) foi lançada formalmente em janeiro com o objetivo de mapear as redes de membros de cartéis de drogas em ambos os lados da fronteira entre os EUA e o México, disseram autoridades americanas.
O funcionário americano que falou à Reuters sob condição de anonimato não ofereceu mais detalhes sobre qualquer informação que essa força-tarefa possa ter fornecido às autoridades mexicanas. Ele enfatizou que a operação em si foi uma operação militar mexicana.
Um ex-funcionário, falando sob condição de anonimato sem se referir especificamente à força-tarefa, disse que os EUA compilaram um dossiê detalhado sobre El Mencho e o forneceram ao governo mexicano para a operação.
O Washington Post informou que a JIATF-CC trabalha regularmente com as Forças Armadas mexicanas por meio do Comando Norte dos EUA, que supervisiona as operações americanas em ambos os países.
A JIATF-CC foi estabelecida numa cerimônia na fronteira entre os EUA e o México. O general Gregory M. Guillot, comandante do Comando Norte dos EUA, disse que o objetivo era criar uma equipe única operando para fornecer informações “precisas, oportunas e relevantes” para combater o narcotráfico.
Morte deixa vácuo de poder
Não está claro quem sucederá Oseguera Cervantes, ou se alguma pessoa poderá fazê-lo. O cartel de Jalisco tem presença em pelo menos 21 dos 32 estados do México e atua em quase todos os Estados Unidos, segundo a Administração de Repressão às Drogas dos EUA (DEA).
A perda de seu líder, que, segundo analistas, “controlava tudo”, poderá ser sentida muito além do México. A ausência dele poderá também desacelerar o rápido crescimento e expansão do cartel e enfraquecê-lo perante o cartel de Sinaloa em várias frentes.
O cartel de Sinaloa, porém, está envolvido em sua própria luta interna pelo poder entre os filhos de El Chapo e a facção leal a Zambada. (Texto da Agência DW)
