Se o conflito persistir ou escalar, um ambiente com dólar mais forte e petróleo mais caro dificulta a construção de um ciclo de cortes de juros
Por Cesar Queiroz – SP
Eu vejo esse novo episódio envolvendo a escalada de tensão e o conflito armado entre Estados Unidos, Israel e Irã como um ponto de inflexão para o mercado.
Até então, acompanhávamos a tentativa de solução diplomática. Quando a mesa de negociação é abandonada e o cenário evolui para um confronto bélico, o que naturalmente acontece é o aumento da incerteza e mercado não gosta de incerteza.
Historicamente, sempre que os Estados Unidos entram diretamente em um conflito armado, o mercado financeiro internacional passa a operar sob maior tensão.
Leia – Irã promete “ofensiva devastadora” e Israel revida com ataques
Leia – Especialistas esperam turbulências no mercado financeiro
Leia – Irã lança ataque no Golfo e Bagdá parece manter a rotina
O que ocorre, na prática, é uma reprecificação de risco. As bolsas tendem a sentir primeiro, com maior volatilidade e pressão negativa nos principais índices. É um movimento clássico de aversão ao risco.
Nesse ambiente, eu entendo que o dólar tende a se fortalecer. Mesmo que a moeda americana estivesse em uma dinâmica recente de desvalorização, um cenário de instabilidade global costuma inverter essa trajetória. O investidor busca proteção, e o dólar continua sendo um dos principais refúgios em momentos de tensão.
Além disso, os títulos do governo americano passam a ser mais demandados. O capital migra para ativos considerados mais seguros.
Para países emergentes, como o Brasil, isso normalmente significa pressão adicional no câmbio e maior sensibilidade dos mercados locais, principalmente se houver saída mais intensa de recursos.
Outro ponto que eu considero central é o petróleo. Sempre que há conflito envolvendo o Golfo Pérsico, o mercado volta a precificar risco logístico.
O Estreito de Ormuz é estratégico, já que uma parcela relevante do petróleo global passa por ali. Qualquer ameaça de bloqueio implica redução de oferta e, consequentemente, pressão de alta no preço do barril.
O ouro também volta ao radar com força. Em momentos como esse, o investidor mais cauteloso procura ativos que preservem valor. O ouro tradicionalmente cumpre esse papel de proteção no curto prazo.
No Brasil, eu vejo um cenário de maior pressão sobre o mercado acionário, com possibilidade de queda do Ibovespa e reação do dólar no mercado doméstico, especialmente se houver redução na oferta de moeda e saída de capital. O mercado brasileiro fica mais exposto à conjuntura externa em momentos de estresse global.
Do ponto de vista de política monetária, isso pode trazer um desafio adicional para o Copom.
Se o conflito persistir ou escalar, um ambiente com dólar mais forte e petróleo mais caro dificulta a construção de um cenário confortável para iniciar um ciclo de cortes de juros. A decisão passa a depender ainda mais do comportamento do câmbio e das expectativas.
Dito isso, eu reforço que ainda é cedo para conclusões definitivas. Estamos no primeiro momento do conflito. O mercado da próxima semana vai dar sinais mais claros sobre a intensidade da reação. Se houver mitigação e retomada das negociações, o impacto pode ser mais contido. Se houver prolongamento, o mercado tende a permanecer mais nervoso, com os preços reagindo diretamente aos desdobramentos do conflito.
(Cesar Queiroz é especialista do mercado financeiro e CEO da Queiroz Investimentos e Participações)
