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Sinal dos tempos

Alfabetização escola aprendizado menino Misto Brasil

Novos parâmetros para a alfabetização inclui o aprendizado de línguas/Arquivo/Portal Lunetas

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A alfabetização do século XXI precisa ser, necessariamente, bilíngue — em língua portuguesa e em língua inglesa

Por Luiz Bandeira da Rocha Filho – DF

Johann Wolfgang von Goethe afirmava com absoluta convicção: “quem, de três milênios, não é capaz de se dar conta, vive na ignorância, na sombra, à mercê dos dias”.

A reflexão do pensador alemão revela-se especialmente atual quando inserida no debate contemporâneo sobre a inteligência artificial.

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Muito se discute acerca dos seus impactos mais visíveis — empregos, novas competências e reconfiguração do valor do trabalho —, porém, não é prudente ignorar uma transformação mais profunda: a progressiva dissolução de um dos pilares estruturais do capitalismo moderno, o tempo como medida de valor.

Durante cerca de dois séculos, o tempo funcionou como unidade universal de medição econômica e social. A jornada de trabalho, os salários por hora, os direitos laborais e até os sistemas previdenciários assentaram-se na premissa de que o tempo humano é escasso e, por isso, valioso.

Esse paradigma, entretanto, vem sendo gradativamente corroído pela inteligência artificial, que altera de forma radical a relação entre tempo, trabalho e valor. A produtividade deixa de estar diretamente vinculada ao esforço humano contínuo, inaugurando uma nova lógica em que o conhecimento, a capacidade de análise crítica e o domínio de linguagens passam a ocupar posição central.

De outro lado, a ausência de políticas públicas efetivas, aliada à baixa mensuração de resultados e à falta de objetividade na identificação das reais necessidades do mercado, tem ampliado o descompasso entre a formação de competências e as exigências do desenvolvimento econômico, tanto no Brasil quanto no cenário global.

Paradoxalmente, o próprio avanço das tecnologias de informação e comunicação simplifica a estruturação dessas políticas. Nunca foi tão possível diagnosticar demandas, monitorar resultados e definir prioridades com base em evidências. Doravante, as escolhas precisam ser reais, objetivas e estratégicas. Não há mais espaço para a dispersão de esforços.

Segurança, saúde, transporte e educação configuram, em geral, o núcleo das demandas sociais. Não se trata de estabelecer hierarquias absolutas, mas de reconhecer que determinadas bases estruturais sustentam todas as demais.

Nas palavras de William Shakespeare, “first things first”. As primeiras coisas devem vir primeiro — e essa máxima exige reflexão profunda.

É difícil discordar de que a educação constitui a base estruturante da sociedade. Por essa razão, deve ser compreendida como a prioridade das prioridades.

Quando a administração pública se ancora nos princípios do acrônimo LIMPE — legalidade, impessoalidade, motivação, publicidade e eficiência —, precisa assegurar que tais fundamentos não sejam apenas formais, mas orientadores efetivos das decisões estratégicas. Nesse contexto, o princípio da motivação assume papel de vanguarda, pois deve refletir os anseios concretos da sociedade.

E, no campo educacional, a base de tudo é a alfabetização.

Ingressar no universo das letras e dos números representa uma das mais significativas conquistas humanas. É nesse estágio que se constrói o alicerce do pensamento crítico, da autonomia intelectual e da capacidade de interpretar o mundo.

Em um horizonte cada vez mais influenciado pela inteligência artificial, a alfabetização deixa de ser apenas uma etapa inicial da educação formal e passa a ser um instrumento essencial para o uso qualificado dessas tecnologias. Não se trata apenas de acessar informações, mas de compreendê-las, questioná-las e utilizá-las de forma produtiva.

As teorias econômicas clássicas, apesar de suas divergências, convergem em um ponto essencial: o valor está ligado ao trabalho, e o trabalho, ao tempo. Contudo, no cenário atual, essa equação se redefine. O valor passa a estar cada vez mais associado à capacidade cognitiva, à criatividade e ao domínio de múltiplas linguagens.

Daí emerge, com ainda mais força, a necessidade de eleger a educação como prioridade primeira.

Por óbvio, a definição de prioridades em políticas públicas envolve elevada complexidade, e seus resultados se manifestam, em regra, no longo prazo. O Ensino Fundamental, com seus nove anos de duração, exige planejamento consistente, continuidade administrativa e compromisso institucional.

Além disso, o tempo de permanência do aluno na escola deve superar seis horas diárias, com uma organização curricular que integre conteúdos essenciais e atividades complementares. Esse modelo é fundamental para assegurar que todos os estudantes alcancem níveis equivalentes de aprendizagem e desenvolvimento do raciocínio lógico, reduzindo desigualdades e ampliando oportunidades.

Diante das profundas transformações em curso, torna-se imperativo reposicionar a alfabetização no centro das políticas educacionais, ampliando seu alcance e sua relevância estratégica.

Aprender o português e também o inglês

A alfabetização do século XXI precisa ser, necessariamente, bilíngue — em língua portuguesa, como instrumento de identidade, cidadania e pensamento estruturado, e em língua inglesa, como linguagem universal do conhecimento, da ciência, da tecnologia e dos negócios.

Não se trata de um diferencial, mas de uma condição para a plena inserção do indivíduo em um mundo cada vez mais interconectado e orientado por fluxos globais de informação.

A introdução estruturada da alfabetização bilíngue desde os anos iniciais potencializa a capacidade cognitiva dos estudantes, amplia horizontes culturais e fortalece competências essenciais para a nova economia baseada no conhecimento.

Nesse contexto, as escolas em tempo integral assumem papel decisivo. Ao ampliarem o tempo pedagógico, criam condições concretas para:

Mais do que ampliar o tempo na escola, trata-se de qualificar esse tempo, transformando-o em oportunidade real de desenvolvimento integral.

Se o tempo, enquanto medida de valor econômico, perde centralidade na era da inteligência artificial, o tempo educacional ganha nova dimensão: passa a ser o espaço estratégico de formação do capital humano capaz de interpretar, utilizar e transformar a realidade.

Investir em alfabetização bilíngue, no contexto de escolas em tempo integral, é, portanto, uma decisão de natureza estrutural. Trata-se de uma política pública com potencial de redefinir trajetórias individuais e coletivas, elevar a qualidade do ensino e impulsionar o desenvolvimento econômico e social.

Este é, sem dúvida, o verdadeiro sinal dos tempos.

(Luiz Bandeira da Rocha Filho foi secretário geral e ministro da Educação)

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