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O capitalismo venceu: o divórcio vira festa

Casamento cerimônia boneco Misto Brasília

Casamento comunitário é um programa do governo que é praticado desde 2021/Arquivo

Surge uma nova “indústria do divórcio”, com festas de separação, ensaios fotográficos, bolos temáticos, playlists e eventos cuidadosamente organizados

Por Aline Mara Gumz Eberspacher – SP

Durante muito tempo, a separação foi socialmente condenada. Muitos casais permaneceram juntos até o fim da vida, mesmo em relações infelizes, por medo do julgamento. Com as transformações culturais e jurídicas, o divórcio passou a ser mais aceito e, em muitos casos, compreendido como uma decisão legítima diante de relações que já não fazem sentido.

Trata-se de um avanço importante: ninguém deveria permanecer preso a um relacionamento que produz sofrimento.

No entanto, em meio a essa mudança, emerge um fenômeno curioso, e no mínimo inquietante. O que antes era vivido como dor, luto e reflexão começa a ser convertido em espetáculo.

Surge uma nova “indústria do divórcio”, com festas de separação, ensaios fotográficos, bolos temáticos, playlists e eventos cuidadosamente organizados para celebrar o fim de um relacionamento, quase como um espelho do casamento, mas dedicado ao rompimento.

Esse mercado movimenta cifras expressivas no mundo, estimado em US$ 952 bilhões em 2024. No Brasil, embora ainda sem dados consolidados, o crescimento é visível: apenas em 2025, a empresária Meg Souza realizou 102 festas de divórcio e projeta dobrar esse número.

À primeira vista, pode parecer apenas uma forma leve e moderna de marcar o encerramento de um ciclo. Afinal, fechar etapas também faz parte da vida.

Entretanto, quando a lógica do mercado se apropria até mesmo das rupturas afetivas, é preciso refletir. Há algo de paradoxal em transformar o fim de um projeto de vida compartilhado em um produto a ser consumido, embalado e exibido nas redes sociais.

Em uma sociedade regida pelo capital, momentos importantes, alegres e marcantes para a vida e para a coletividade são transformados em eventos que merecem ser festejados e brindados.

Isso se repete ano após ano: na virada, no Natal, na Páscoa. No âmbito pessoal, celebramos o chá de revelação, o nascimento de um filho, a formatura, aniversários e, sobretudo, o casamento.

Esses rituais existem para celebrar a felicidade. O casamento, em especial, simboliza o amor e a decisão de duas pessoas que escolhem caminhar juntas, construir uma história e, muitas vezes, formar uma família.

Em geral, casa-se para ser feliz, sob a promessa do “até que a morte os separe”. Independentemente do poder aquisitivo, as celebrações para festar a união podem variar em tamanho e custo, mas o essencial permanece: a alegria de estar juntos e a esperança de um futuro compartilhado.

Enquanto alguns choram, outros vendem lenços, diz o velho ditado. No caso do divórcio festivo, talvez possamos acrescentar: enquanto alguns elaboram suas dores, outros vendem a estética da superação.

Afinal, não podemos esquecer que, na maioria das vezes, aquelas duas pessoas um dia se uniram por amor, por sonhos e por expectativas de felicidade.

Talvez valha lembrar algo simples: as pessoas não se unem para se separar. Elas se unem para serem felizes. Quando um casamento termina, o que existe, antes de tudo, é o encerramento de um projeto que um dia foi sonhado a dois.

Transformar isso automaticamente em festa pode dizer mais sobre a lógica do consumo do que sobre a realidade das relações humanas.

No fim das contas, o capitalismo mostra novamente sua capacidade de transformar qualquer experiência, inclusive as mais íntimas, em oportunidade de mercado. Até mesmo o amor, e agora o fim dele, passa a ser embalado, fotografado e vendido.

E assim seguimos: numa sociedade em que até os sentimentos parecem precisar de um roteiro, de um evento e, claro, de um pacote de serviços.

Talvez o verdadeiro desafio seja lembrar que nem tudo precisa virar espetáculo, especialmente aquilo que diz respeito às nossas dores e aos nossos afetos mais profundos.

O amor merece respeito, inclusive quando termina.

(Aline Mara Gumz Eberspacher é doutora em Sociologia pela Université Paul Valéry (Montpellier III – França) e coordenadora dos cursos de pós-graduação do Centro Universitário Internacional Uninter)

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