Espera-se que a mãe seja profissional competente, parceira presente, gestora doméstica eficiente, educadora atenta
Por Diogo Lara – SP
Todo segundo domingo de maio, o Brasil para para celebrar as mães. Flores, cafés da manhã, mensagens emocionadas nas redes sociais.
Mas, passada a homenagem, a segunda-feira chega e, com ela, a lista interminável que define o cotidiano de tantas mulheres: levar e buscar os filhos, dar conta do trabalho, lembrar da consulta do pediatra, organizar o supermercado, responder ao grupo da escola, planejar o jantar, conferir a lição de casa.
E, no meio disso tudo, ainda encontrar tempo para a academia, para se cuidar, para estar bonita, jovem, disponível.
A maternidade contemporânea virou uma equação quase impossível. Espera-se que a mãe seja profissional competente, parceira presente, gestora doméstica eficiente, educadora atenta. Como se não bastasse, que mantenha tudo isso com leveza, paciência e bom humor.
As cobranças, vindas de fora e de dentro, multiplicaram-se. E, se antes a aldeia ajudava a criar a criança, hoje muitas mães criam praticamente sozinhas, com redes de apoio cada vez mais estreitas.
Some-se a isso o desafio contemporâneo de educar filhos no mundo digital. As telas chegaram antes dos manuais.
Algoritmos disputam a atenção das crianças com uma força que nenhuma geração de pais havia enfrentado. Ansiedade, comparação, hipersexualização precoce, dificuldade de concentração, isolamento social travestido de hiperconexão…
Tudo isso passa pelas mãos de mães que tentam, no escuro, decidir quando liberar, quando proibir, quando conversar, quando se preocupar, em um trabalho emocional invisível e extenuante.
Cabe lembrar que são as mães que dão o tom emocional da casa. O sistema nervoso de uma criança se regula no encontro com o sistema nervoso de quem cuida dela. Quando a mãe está sobrecarregada, ansiosa, esgotada, esse estado se transmite.
Quando ela está bem, segura, amparada, a casa inteira respira em outra frequência. O bem-estar materno é uma infraestrutura afetiva que sustenta todos ao redor.
Por isso, talvez seja hora de virar o roteiro deste Dia das Mães.
Em vez de apenas agradecer, perguntar.
Em vez de presentear, escutar.
Que tal usar este domingo para conhecer mais a sua mãe?
Como você está, mãe, de verdade?
O que tem te cansado mais?
O que faria seu dia a dia mais leve, mais agradável?
O que você gostaria de fazer e não tem feito?
O que faria sua experiência de estar viva mais satisfatória?
São perguntas simples. Mas, para muitas mulheres, são perguntas inéditas. Mães se acostumaram a ser as que perguntam, as que se preocupam, as que organizam o cuidado dos outros.
Inverter essa direção, mesmo que por um dia, é um gesto de profunda reparação e reconhecimento.
E talvez esse presente seja mais valioso do que o buquê ou o café da manhã na cama. Como seria usar a sua criatividade para emocioná-la com o seu afeto genuíno e com o reconhecimento de que ela também precisa ser cuidada.
Que ela também tem desejos próprios, cansaços próprios, sonhos que foram ficando para depois. Que ela é, antes de tudo, alguém que sente e vive, e não apenas uma função. Desejo a você, nesse dia da Mães, um encontro memorável de empatia e conexão profunda.
(Diogo Lara é médico psiquiatra e PhD em Neurociências pela UFRGS e autor dos livros “Temperamento Forte” e “Bipolaridade e Imersão”)
