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DF esquenta de forma desigual: periferia sofre maior impacto

Entrequadra do Plano Piloto de Brasília/Arquivo/Agência Brasília

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Regiões como Ceilândia e Riacho Fundo sofrem com ilhas de calor, queimadas, baixa umidade e falta de planejamento urbano

Por Beatriz Ribas, Evelyn Cristine, Maria Eduarda Barros, Maria Júlia Andrade e Mariana Mazzaro – DF

Nas regiões administrativas menos arborizadas do Distrito Federal, o calor pesa mais no corpo e na rotina dos moradores.

Áreas como o Plano Piloto contam com maior cobertura vegetal e temperaturas médias mais amenas.

Cidades como Ceilândia e Riacho Fundo enfrentam os efeitos combinados da expansão urbana, impermeabilização do solo, da seca prolongada e da perda de vegetação do Cerrado.

O resultado aparece nas ruas sem sombras, nos alagamentos durantes os temporais, no aumento do desconforto térmico e nos problemas respiratórios agravados pela baixa umidade e pelas queimadas. 

“No período da seca, o calor fica bem mais forte. Muitas ruas praticamente não têm sombra e isso afeta o conforto das pessoas, principalmente crianças, idosos e quem precisa passar muito tempo na rua”,  afirma o estudante Victor Riquelme Pereira Torres, de 20 anos.

Morador de Ceilândia, a cerca de 30 km do Plano Piloto, ele afirma que a ausência de árvores em diversas áreas influencia diretamente o bem-estar dos moradores.

Enquanto na região central do DF as temperaturas médias oscilam entre 19°C e 22°C, moradores das Regiões Administrativas mais distantes, como Ceilândia e Riacho Fundo, enfrentam médias que variam de 16°C a 29°C. 

Essa diferença térmica está associada ao crescimento acelerado das construções, à impermeabilização do solo e à escassez de áreas verdes, fatores que ampliam a sensação de calor e agravam os efeitos da seca nessas regiões.

Além do desconforto térmico, Victor indica que a preservação das áreas verdes enfrenta obstáculos relacionados ao crescimento urbano.

Para ele, a expansão da cidade levou à ocupação de espaços que poderiam desempenhar funções ambientais importantes, enquanto problemas como o descarte inadequado de resíduos contribuem para a degradação das áreas ainda existentes.

A relação entre urbanização e drenagem também é percebida pelos moradores. Victor relata que o aumento das construções e da pavimentação reduziu a capacidade de infiltração da água da chuva no solo.

Como consequência, episódios de alagamento se tornaram mais frequentes em períodos de precipitação intensa, fenômeno observado em diferentes pontos da região.

Na avaliação do estudante, políticas públicas voltadas à adaptação climática precisam integrar ações de arborização, preservação ambiental, drenagem urbana e planejamento territorial. Ele defende que o plantio de árvores e a ampliação de áreas verdes sejam acompanhados por investimentos em infraestrutura capaz de reduzir os impactos das chuvas e das ondas de calor.

Victor também destaca o papel da população na preservação ambiental. Entre as medidas que considera importantes estão o descarte correto do lixo, o cuidado com áreas verdes e a participação em iniciativas comunitárias de conservação. 

A redução dos problemas ambientais depende da atuação conjunta entre moradores e poder público.

No Riacho Fundo, a moradora Mellyssa Silva, 19 anos, relata que os efeitos da seca impactam diretamente a saúde da população.

Em sua família, todos convivem com rinite e sinusite, o que torna necessário o uso de umidificadores e ventiladores durante os períodos de baixa umidade do ar e aumento das queimadas no Cerrado.

Mellyssa avalia que os espaços de lazer da região são insuficientes para enfrentar o calor extremo. Segundo ela, o Parque Ecológico do Riacho Fundo é pequeno, e muitos moradores acabam buscando o Calçadão e outras áreas mais arborizadas para se refrescar. 

A preocupação com o aumento das queimadas também faz parte da realidade local. Para a moradora, a comunidade ainda não está preparada para prevenir esse tipo de ocorrência.

Como medida prioritária para os próximos anos, ela defende a preservação das áreas verdes existentes, evitando que novos empreendimentos avancem sobre espaços naturais da região.

Incêndio Parque do Guará DF Misto Brasil
Bombeiros tentam controlar o incêndio que pode ter sido provocado/Arquivo/Joel Rodrigues/Agência Brasília

Monitoramento do desmatamento e expansão urbana

Grande parte dos problemas apontados por Victor e Mellyssa são decorrentes do desmatamento que ocorre no Distrito Federal, impulsionado pela  expansão urbana e por queimadas intencionais ou naturais que ocorrem no Cerrado. 

O impacto da expansão urbana acumulada consolidou a impermeabilização do solo e a perda da cobertura vegetal original. É justamente esse passivo ambiental que explica os problemas relatados, justificando o aumento da sensação térmica e os alagamentos em temporais. 

De acordo com a coordenadora da área de emergências climáticas e epizootia do ICMBio, Cláudia Sacramento, alguns dos maiores desafios enfrentados pela coordenação na prevenção e no enfrentamento desses eventos extremos estão na intensificação das mudanças climáticas.

Também naumento da frequência e da severidade dos incêndios, a expansão urbana desordenada, a fragmentação dos habitats, a escassez hídrica prolongada e as limitações de recursos humanos e logísticos.

A especialista relata que eventos climáticos extremos ocorriam com uma certa periodicidade, a cada 5, 10 anos, porém, atualmente esses eventos estão cada vez mais recorrentes e acontecem em um curto período. Isso afeta diretamente o dia a dia e o bem-estar dos indivíduos. 

“Se temos mais dias sem chuvas e maior quantidade de dias com ondas de calor, isso impacta diretamente a vegetação, a fauna e a vida das pessoas.”, aponta.

Para Cláudia, no Cerrado, a combinação de longos períodos de seca, altas temperaturas e vegetação altamente inflamável aumenta significativamente o risco de incêndios de grandes proporções. Esses incêndios podem ser causados de maneira natural ou intencional e são um dos maiores motivos para o desmatamento da flora. 

Ao longo dos anos, o bioma de Cerrado, onde está localizado o Distrito Federal, vem sofrendo cada vez mais com a desarborização. Entre 1997 e 2024 no DF foi perdido cerca de 5,5% da sua vegetação original. 

A partir do meio dos anos 2000, houve uma queda significativa no percentual de hectare desmatados principalmente entre 2023 e 2024.

O DF esquenta de forma desigual: menos verde, periferia sobre maior impacto.

Enquanto as áreas arborizadas amenizam as temperaturas, regiões como Ceilândia e Riacho Fundo sofrem com ilhas de calor, queimadas, baixa umidade e falta de planejamento urbano.

Atualmente o Distrito Federal conta com cerca de 37% da sua vegetação nativa e também possui diversos territórios que estão em alguma categoria de preservação, como a Flona e o Parque Nacional de Brasília, para auxiliar a manter a biodiversidade na região. 

Painel do desmatamento no Distrito Federal

Políticas públicas e resposta institucional

Para auxiliar a população do Distrito Federal a diminuir as problemáticas relacionadas com as mudanças climáticas, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Distrito Federal (Sema) mantém iniciativas voltadas à redução da vulnerabilidade climática nas Regiões Administrativas.

Uma dessas ações é o programa AdaptaCidades, realizado em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima,que busca envolver a comunidade na elaboração de estratégias para enfrentar os impactos das crises climáticas no Distrito Federal.

Outro projeto da Secretaria é o Plano de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIF), responsável por promover a atuação integrada de órgãos públicos para proteger o Cerrado e reduzir os riscos às comunidades, especialmente durante o período de seca, quando os incêndios se tornam mais frequentes. 

Essas iniciativas ajudam a aproximar a população das movimentações realizadas para preservar a natureza e minimizar os impactos que são causados diariamente pelas instabilidade do aquecimento global. 

(Da Agência de Notícias do CEUB com supervisão de Vivaldo de Souza)

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