A simples ampliação da carga horária ou da oferta da disciplina não tem sido suficiente para assegurar níveis satisfatórios de aprendizagem
Por Luiz Bandeira da Rocha Filho – DF
A universalização do ensino da língua inglesa representa um dos maiores desafios educacionais do século XXI.
Em uma sociedade profundamente conectada pela ciência, pela economia digital e pela circulação global do conhecimento, a proficiência em inglês deixou de constituir um diferencial individual para transformar-se em competência estratégica para o desenvolvimento nacional.
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Entretanto, a simples ampliação da carga horária ou da oferta da disciplina não tem sido suficiente para assegurar níveis satisfatórios de aprendizagem.
Em diversos sistemas educacionais observa-se que, após anos de estudo, parcela significativa dos estudantes permanece incapaz de ler, pronunciar ou compreender textos simples em língua inglesa.
Essa realidade evidencia que o principal desafio talvez não resida na quantidade de ensino oferecida, mas na definição do ponto de partida da aprendizagem.
Toda alfabetização pressupõe a construção de relações estáveis entre os sons da fala (fonemas) e suas representações gráficas (grafemas).
Na língua materna, esse processo constitui um dos pilares da aprendizagem da leitura e da escrita.
No ensino de uma língua adicional, contudo, essa etapa frequentemente é tratada de forma secundária, sendo substituída pela memorização de vocabulário, de regras gramaticais ou de expressões prontas.
Sob a perspectiva da Linguística, da Ciência Cognitiva e da Neurociência da Aprendizagem, essa inversão metodológica pode impor ao estudante uma sobrecarga cognitiva desnecessária.
Tecnologia de mediação fonológica
Sem compreender previamente as regularidades que organizam a relação entre grafemas e fonemas da nova língua, o aprendiz tende a interpretar a escrita inglesa a partir dos padrões fonológicos do português, dificultando a leitura, a pronúncia e a consolidação de representações linguísticas estáveis.
Nesse contexto, torna-se recomendável que as políticas públicas de ensino da língua inglesa passem a considerar a alfabetização fonológica como etapa estruturante da aprendizagem, estabelecendo como objetivo inicial o domínio consciente das correspondências mais frequentes entre grafemas e fonemas antes da ampliação sistemática do vocabulário e do estudo gramatical.
É precisamente nesse cenário que a Tabelinha do Inglês, desenvolvida por Dangelo Antonio Julio Ciccarini, apresenta relevante potencial pedagógico.
Mais do que um material de apoio, ela pode ser compreendida como uma tecnologia de mediação fonológica que organiza, de maneira sistemática, as correspondências recorrentes entre a escrita e a pronúncia da língua inglesa para falantes do português.
Sua principal contribuição consiste em reduzir a complexidade inicial do processo de alfabetização em língua estrangeira, permitindo que o estudante desenvolva, desde os primeiros contatos com o idioma, uma compreensão estruturada das regularidades fonológicas que orientam a leitura, a pronúncia e a decodificação das palavras.
Sob essa perspectiva, a proposta não substitui os currículos nacionais, a Base Nacional Comum Curricular, nem as metodologias comunicativas amplamente adotadas.
Ao contrário, oferece uma etapa preparatória capaz de potencializar seus resultados, fortalecendo as competências fonológicas indispensáveis para o desenvolvimento posterior da fluência, da compreensão textual e da comunicação oral.
Do ponto de vista das políticas públicas, essa abordagem apresenta características particularmente relevantes.
Grafemas e fonemas
Trata-se de uma metodologia passível de padronização, de formação docente em larga escala, de monitoramento por indicadores objetivos de desempenho e de avaliação por estudos experimentais controlados, permitindo que sua implementação seja continuamente aperfeiçoada com base em evidências empíricas.
A incorporação de tecnologias educacionais fundamentadas na relação entre grafemas e fonemas aproxima o ensino da língua inglesa dos princípios da educação baseada em evidências, atualmente defendidos em diversos sistemas educacionais de alto desempenho.
Em vez de concentrar esforços exclusivamente na ampliação da exposição ao idioma, propõe-se organizar cientificamente o percurso inicial da aprendizagem, reduzindo dificuldades previsíveis e favorecendo a construção de competências linguísticas duradouras.
Assim, recomenda-se alicerçado na Resolução nº 107/2021, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo – trata das matrizes curriculares dos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental -, que os formuladores de políticas públicas considerem a alfabetização fonológica como componente essencial dos programas de ensino da língua inglesa nos anos iniciais da educação básica.
E promovam a avaliação de tecnologias educacionais voltadas à mediação entre grafemas e fonemas, entre as quais se destaca, como hipótese pedagógica promissora, a Tabelinha do Inglês fruto do incansável trabalho do pesquisador supramencionado.
(Luiz Bandeira da Rocha Filho é economista e foi secretário geral e ministro do Ministério da Educação)
