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Tudo que líquido se torna gasoso… 

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As discussões políticas ficam mais intensas no período eleitoral/Arquivo/Direito Me

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Por várias razões liberais e socialistas perderam suas capacidades de aglutinar pessoas e grupos. Abriram espaços para o sequestro da política

Por Ávaro Reinaldo de Souza  e Edmundo Lima de Arruda Jr – RJ

Kundera e Bauman inspiraram-se em alguma medida em Baudelaire e Marx (do Manifesto) ao registrar cada um na sua perspectiva, a frágil condição dos modernos, a insustentável leveza do ser, a efemeridade de um tempo, a do mundo desencantado (?): “tudo que é sagrado será profanado, tudo que é sólido se esfuma no ar” vaticinava o pensador de Trier.

A angústia de todos os homens universaliza-se e acelera-se na condição moderna. Mas a modernidade “líquida” é na realidade de hoje uma modernidade gasosa.

Suspensos no vácuo de tantas promessas incumpridas sentimos um cheiro acre da sociedade concreta se afastando do idealizado como Sociedade. Distopias, anomias, patologias de uma Modernidade truncada, prostituída, traída. Muito subjaz ao aicebergue chamado Brasil no contexto preciso da referência histórica atual, uma sociedade na qual o Moderno é mais uma das falsificações apontadas por Nelson Rodrigues.

1. Os políticos não têm limites para a corrupção. Difícil encontrar exceções.

2. ⁠Governo e parlamento encontram-se desconectados do senso público republicano. Cada vez mais desacreditados. Quem leva a sério nossos políticos?

3. ⁠O Poder Judiciário é diuturnamente questionado (para economizar palavras ofensivas) , em especial o STF. Todo o sistema judicial é abalado nessa onda de descrença nas instituições da democracia. O Judiciário – e a sua mais alta Corte – não deveria ser o garantidor da vida e continuidade da democracia?

E o que dizer dos protagonistas da luta social? Por várias razões liberais e socialistas perderam suas capacidades de aglutinar pessoas e grupos. Abriram espaços para o sequestro da política.
A extrema direita já não tem pudores ao se assumir como fascista apresentando-se “democraticamente” .

Ela se estrutura com apoio em um projeto de poder de caciques evangélicos (oriundos de certo pentecostalismo), verdadeiros aiatolás tupiniquins. Um escárnio a mercantilização da fé com planejada fanatização de amplos setores pobres e miseráveis.

A direita liberal tardia é um balão de gatos composto do centrão, sociais democratas evergonhados (com L. Colletti) e uma pseudo-esquerda oportunista e corrupta. O transformismo (ver A. Gramsci) é a cooptação em várias dimensões do poder e do dinheiro, com suas consequências nefastas para as classes trabalhadoras.

Não é de se afastar dessa esquerda de direita composições, adesões a quarteladas futuras, no estilo reativo caudilhesco da tradição latino-americana. Mormente diante do avanço eleitoral da extrema direita nos últimos anos.

O governo lulopetista assemelha-se cada vez mais àquele de João Goulart. Jango caiu por falta de capacidade, autoridade e coragem para impor as reformas de base. Naquele período de esgotamento da aliança populista vigente desde 1930, as mudanças planejadas por Jango tinham uma base social de apoio. Havia movimentos sociais, povo nas ruas.

O que falta ao presidente

O contexto da guerra fria legitimou os golpes de estado na periferia. Hoje a extreladireita emerge diante de uma sociedade civil desorganizada sob o ponto de vista das classes trabalhadoras, impondo a tutela da desinformação que se transmuta em movimento social digital.

Sem ilusões. Hoje à falta de organizações populares ativas observa-se tanto o esgotamento do entreguismo lulopetista com o correlato esforço dos EUA e aliados em salvar seu poderio hegemônico, graças ao trabalho sujo da extremadireita. Enganam-se os que sonham com a retomada do poder e do dinheiro no sentido diretivo da direita liberal, “ética”.

A direita liberal pode ter consciência das histrionices e truculências de lideranças tão caricatas a exemplo de Trump e Bolsonaro, mas em seu núcleo pragmático apostam na manutenção do interesses (econômicos e geopolíticos) que subjazem aos blocos dominantes diante da ascensão o chinesa.

Lula da Silva reconhece (tardiamente) que o reformismo serve mais ao grande capital e é extremamente nocivo aos trabalhadores. Daí a fala atual do presidente advertindo para a busca das causas estruturais das clivagens e impasses de hoje como base para um projeto democratizante.

Quem viveu 1964 conhece o comportamento dos protagonistas do processo histórico. Esquerda e direita tradicionais tendem, de maneiras diversas, a trair ideários e aderir à interesses corporativos imediatos. Traição em detrimento de ações sociais mais profundas que toquem pessoas e as provoquem a participar da democratização de um país pleno de contradições.

As transformações por cima, os projetos das elites, todas elas, esgotaram-se, ao menos para os reais interessados, sugeri temas em suas capacidades de reparação de danos. Também para as elites as mais bem intencionadas na capacidade do mercado e do estado de Direito em manter um casamento eterno, parece haver um luto com a grande desilusão.

Talvez diante do abismo seja um derradeiro momento de repensar ideário e condutas, redefinindo-as em defesa de uma sociedade igualitária e livre.

(Alvaro Reinaldo de Sousa e Edmundo Lima de Arruda Jr são professores titulares de direito aposentados da UniRIO e UFSC)

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