Havia corredores cheios. Macas onde antes não existiam macas. Alarmes tocando sem parar. Profissionais escondendo o medo atrás de máscaras
Por Cinthya Telles Bandeira – DF
Era uma vez… uma pandemia e ninguém sabia como aquela história terminaria
Era uma vez uma pandemia. Mas não havia nada de conto de fadas nela.
Havia corredores cheios. Macas onde antes não existiam macas. Alarmes tocando sem parar. Profissionais escondendo o medo atrás de máscaras. E famílias esperando do lado de fora por notícias que, muitas vezes, ninguém queria dar.
No começo, contávamos os casos. Depois, os leitos. Os respiradores. Os medicamentos. Os profissionais disponíveis.
Até percebermos que já não estávamos contando o que tínhamos.
Estávamos contando o que não tínhamos.
Enquanto o mundo assistia pela televisão, nós descobríamos uma pandemia completamente diferente do lado de dentro. Ali não existiam gráficos. Existiam rostos, o paciente que entrava conversando e, horas depois, já estava na UTI.
Faltava tudo. Inclusive respostas
Com o passar dos meses, o inimaginável virou rotina.
Faltavam leitos, profissionais, medicamentos, equipamentos, respiradores. Faltou até oxigênio. “não dava para estocar”.
Mas havia uma escassez ainda mais assustadora: faltava conhecimento sobre aquilo que estávamos enfrentando. O mundo inteiro tentava compreender a doença enquanto nós já precisávamos tomar decisões diante dela.
Por que alguns pacientes pioravam tão rapidamente? Qual era a conduta certa? O que funcionava, e o que ainda era um mistério?
A ciência precisava de tempo. O paciente não tinha esse tempo.
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar para quem não esteve lá: nos acostumamos com coisas com as quais ninguém deveria precisar se acostumar. Inclusive com a morte; não a das estatísticas, mas aquela que tinha nome, rosto, família esperando do lado de fora.
Houve momentos em que fizemos tudo o que o conhecimento daquele instante e a estrutura disponível permitiam. E não foi suficiente.
Existe uma distância enorme entre saber que um sistema chegou ao limite e estar dentro dele quando o limite chega.
Nós estávamos.
O plantão terminava. O medo vinha conosco
Depois de horas dentro do hospital, ainda existia uma segunda missão: não levar aquilo para casa.
Do outro lado da porta havia filhos, maridos, esposas, pais, mães — pessoas que não haviam escolhido correr aquele risco. Então criamos rituais que antes de 2020 pareceriam absurdos: roupa deixada do lado de fora, entrada pela área de serviço, banho no tanque, às vezes mangueira no jardim.
Qualquer coisa que pudesse criar uma fronteira entre o hospital e quem amávamos.
Talvez funcionasse. Talvez não. Ninguém tinha certeza de quase nada. Mas depois de ver o que aquela doença era capaz de fazer, ninguém precisava de certeza para tentar proteger os seus.
E nós também adoecíamos. Eu tive Covid-19. Depois de novo. E de novo. E voltei, como tantos outros voltaram. Porque enquanto um profissional adoecia, alguém precisava ocupar aquele plantão.
O hospital não podia simplesmente colocar uma placa na porta: “Estamos fechados.”
Algumas coisas não saíam quando tirávamos o jaleco
Havia um momento em que o plantão oficialmente terminava. Mas algumas histórias entravam no carro conosco. Um rosto. Uma decisão. Uma pergunta que insistia em voltar: será que poderíamos ter feito diferente?
Como dormir depois disso? Como desligar a cabeça e fechar os olhos, sabendo que em poucas horas o despertador tocaria e tudo começaria de novo?
Foi ali, também, que muitos de nós encontramos Deus. Quando a ciência tinha resposta, nós a seguíamos. Quando havia tratamento, tratávamos. Quando chegávamos ao limite daquilo que sabíamos, havia orações que nunca apareceram em prontuário algum.
Mas apareciam no corredor, antes de um procedimento, diante de uma decisão difícil. Às vezes eram só dois segundos atrás de uma máscara: “Meu Deus, me dê sabedoria. Guie minhas mãos.”
Não pedíamos milagres para substituir a medicina. Pedíamos força para fazer direito aquilo que ainda estava em nossas mãos. E, depois, continuar.
Nunca quisemos ser heróis
Durante algum tempo, nos chamaram de heróis. Manchetes, campanhas, homenagens, redes sociais.
Mas quem estava lá sabia que aquilo passaria. E passou.
Nunca precisamos ser heróis. Precisávamos ser respeitados. Por trás daquela palavra bonita havia profissionais adoecendo, afastando-se das próprias famílias, cobrindo escalas, tomando decisões e voltando, poucas horas depois, para o mesmo lugar onde tinham vivido o que ainda tentavam processar.
Não havia superpoder. Havia medo, cansaço, improviso, fé, e o compromisso simples de cuidar de quem estivesse diante de nós.
O Juramento de Hipócrates nunca precisou de capa. Naqueles dias, ele só precisava de gente disposta a atravessar a porta mais uma vez.
Depois, o mundo seguiu
Um dia, quase sem percebermos, as máscaras começaram a cair. Os restaurantes reabriram. Os aeroportos encheram. As pessoas voltaram a se abraçar.
E isso era bom. A vida precisava voltar.
As manchetes mudaram de assunto. As homenagens desapareceram. E aquela palavra, “heróis”, foi ficando para trás, como fica tudo aquilo que já não serve mais à manchete do dia.
Você viu números. Nós vimos pessoas.
Você viu hospitais lotados. Nós vimos famílias do lado de fora.
Você viu uma pandemia. Nós estávamos dentro dela.
Não salvamos todos. Não tínhamos todas as respostas. Não fomos os heróis, nós éramos os médicos, os enfermeiros, os técnicos, os fisioterapeutas e tantos outros, tentando fazer o melhor possível em um tempo em que o possível, muitas vezes, era menor do que o necessário.
O mundo seguiu em frente. Nós também seguimos.
Mas quem atravessou aquelas portas sabe: existe um jeito de continuar que não é o mesmo que esquecer. É carregar, com mais silêncio do que dor, aquilo que aprendemos sobre o limite e sobre o que fazemos quando o limite chega mesmo assim.
Era uma vez uma pandemia. Para o mundo, ela virou passado.
Para nós, ela virou parte de quem somos.
(Cinthya Telles Bandeira é médica da área de Medicina de Emergência)
