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Nossos filhos e Zuckerberg: a conta está chegando

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Mark Zuckerberg é um bilionário que fez fortuna com as redes sociais/Arquivo/BBC

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A economia da atenção descobriu cedo o valor de manter crianças e adolescentes conectados. Governos, famílias e tribunais calculam o custo.

Por Charles M. Machado – SC

A notícia de que a Meta concordou em pagar até US$ 18 bilhões para encerrar processos movidos por quase todos os Estados norte-americanos, sob acusações relacionadas ao desenho de Facebook e Instagram para manter crianças e adolescentes excessivamente engajados, não deveria ser lida apenas como mais um acordo bilionário envolvendo uma Big Tech.

A empresa não reconheceu irregularidades, mas aceitou também mudanças importantes na utilização de suas plataformas por adolescentes, incluindo limites de tempo, restrições durante a madrugada e redução de notificações em determinados horários.

O episódio interessa porque mexe no ponto mais sensível de um dos modelos de negócio mais bem-sucedidos das últimas décadas: a capacidade de transformar permanência, comportamento e atenção humana em valor econômico. [1]

TikTok, YouTube, Snapchat, games, serviços de streaming e inúmeras outras plataformas participam, com intensidades e modelos distintos, da mesma disputa.

O que realmente precisa ser discutido é a arquitetura econômica que se formou quando empresas descobriram que alguns segundos adicionais diante de uma tela poderiam ser medidos, analisados, transformados em dados e posteriormente convertidos em publicidade, consumo ou influência.

Foi dessa disputa pela atenção que começou a surgir aquilo que tenho denominado Era da Desatenção: não uma sociedade que deixou espontaneamente de prestar atenção, mas um ambiente no qual milhares de estímulos econômicos passaram a competir permanentemente pela capacidade limitada que cada indivíduo possui de perceber, escolher e permanecer concentrado.

O paradoxo é importante. Nunca tantas empresas investiram tanto dinheiro para conquistar nossa atenção e, ao mesmo tempo, nunca estivemos submetidos a tamanho volume de estímulos destinados a interrompê-la.

A notificação precisa vencer a conversa. O vídeo seguinte precisa impedir que o anterior encerre a experiência. A recomendação precisa antecipar o que desejamos assistir antes mesmo de decidirmos procurar alguma coisa.

Percepção de risco, autoestima e identidade

O conteúdo precisa competir com milhões de outros conteúdos e, por isso, tende a ser mais rápido, mais emocional, mais provocativo e mais imediatamente recompensador. A economia da atenção não terminou porque surgiu a desatenção; ela se sofisticou a ponto de produzi-la como consequência do próprio modelo de disputa.

Quando esse mecanismo alcança crianças e adolescentes, a discussão deixa de ser apenas tecnológica. Torna-se econômica, política, educacional e regulatória.

Durante muitos anos, a sociedade tratou o problema essencialmente como uma questão de disciplina doméstica. Caberia aos pais controlar o tempo de tela, retirar o telefone da mesa, impedir o uso durante a madrugada e ensinar os filhos a se desconectarem.

Essas medidas continuam relevantes, mas existe algo evidentemente desproporcional em imaginar que a solução possa repousar exclusivamente sobre as famílias. De um lado está um adolescente, ainda formando sua capacidade de controle de impulsos, percepção de risco, autoestima e identidade; de outro estão corporações com alguns dos melhores engenheiros, cientistas de dados, especialistas em inteligência artificial e sistemas de experimentação comportamental do mundo.

Essa assimetria ajuda a explicar por que a discussão está migrando da educação familiar para a responsabilidade empresarial. Não porque os pais tenham deixado de ter responsabilidade, mas porque começou a ficar difícil sustentar que somente o usuário deve responder pelos efeitos de ambientes deliberadamente desenhados para maximizar seu envolvimento.

O problema econômico pode ser descrito por uma expressão conhecida: externalização de custos. A empresa captura a receita produzida pelo engajamento, enquanto parte das consequências decorrentes do uso excessivo é distribuída entre famílias, escolas, profissionais de saúde e o próprio Estado.

A receita entra no balanço da plataforma; os custos relacionados à perda de sono, dificuldades de concentração, conflitos familiares, exposição a conteúdos inadequados ou utilização compulsiva aparecem em outros balanços — quando aparecem.

É justamente nesse ponto que a Era da Desatenção deixa de ser uma discussão abstrata sobre celulares para se tornar uma questão de economia política. No segundo trimestre de 2026, a Meta registrou receita de US$ 60,8 bilhões e uma média de 3,6 bilhões de pessoas utilizando diariamente sua família de aplicativos.

Risco jurídico, exigências regulatórias

A receita cresceu 28% em relação ao mesmo período do ano anterior. Não há nada de ilegítimo em uma empresa ser extraordinariamente lucrativa. A questão é compreender quais incentivos estão embutidos em um modelo no qual aumentar a capacidade de conhecer, prever e prolongar o comportamento do usuário possui enorme valor econômico. [2]

O acordo de até US$ 18 bilhões, por isso, possui relevância maior como sinal regulatório do que como ameaça à existência financeira da Meta. Distribuído ao longo de dez anos, o valor é perfeitamente absorvível por uma companhia dessa dimensão.

O que muda é outra coisa: pela primeira vez em escala dessa magnitude, o custo associado à maneira como adolescentes são mantidos dentro das plataformas começa a ser incorporado ao cálculo econômico do próprio negócio. Se mecanismos capazes de aumentar o engajamento produzem risco jurídico, exigências regulatórias, restrições operacionais e indenizações bilionárias, o incentivo empresarial começa a mudar.

O que durante anos foi tratado como externalidade passa lentamente a entrar na planilha.

Os números justificam pelo menos a cautela.

O alerta sobre redes sociais e saúde mental de jovens publicado pelo Surgeon General dos Estados Unidos registra que até 95% dos adolescentes entre 13 e 17 anos utilizam alguma plataforma social e que cerca de um terço relata utilizá-las “quase constantemente”.

O mesmo documento aponta que jovens que permanecem mais de três horas por dia nas redes apresentam aproximadamente o dobro do risco de problemas de saúde mental, incluindo sintomas de ansiedade e depressão.

Esses números precisam ser interpretados com cuidado: associação estatística não significa que todas as dificuldades emocionais dos adolescentes sejam causadas pelas redes sociais, tampouco que toda utilização seja prejudicial. Plataformas também oferecem informação, sociabilidade, criatividade e pertencimento. Mas a ausência de causalidade simples não pode ser convertida em argumento para ignorar riscos quando a exposição ocorre em escala quase universal. [3]

No Brasil, a dimensão dessa exposição é particularmente relevante. A TIC Kids Online Brasil 2025 mostrou que 92% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos utilizavam a Internet, enquanto 85% dos usuários possuíam perfil próprio em pelo menos uma das plataformas investigadas. Entre crianças de apenas 9 e 10 anos, esse percentual já alcançava 64%; entre adolescentes de 15 a 17 anos, chegava a 99%.

YouTube, TikTok e WhatsApp

O WhatsApp era utilizado várias vezes ao dia por 53%, YouTube e Instagram por 48% e TikTok por 46%. Outro dado ajuda a compreender quem passou a ocupar parte do espaço tradicionalmente destinado à família, escola e grupos de convivência: 46% assistiam várias vezes ao dia a vídeos produzidos por influenciadores digitais. [4]

Esses números não demonstram que uma geração esteja condenada, mas revelam uma transformação profunda na formação social. Crianças sempre foram influenciadas pelo ambiente em que cresceram. Família, escola, televisão, publicidade, religião, música e grupos de amigos sempre disputaram alguma parcela de sua atenção.

A diferença contemporânea é que nenhuma dessas estruturas anteriores possuía a mesma capacidade de observar individualmente milhões de pessoas, registrar continuamente seus comportamentos e ajustar automaticamente aquilo que lhes seria apresentado em seguida.

A televisão transmitia um programa para milhões de crianças; o algoritmo pode construir milhões de sequências diferentes para milhões de crianças.

Essa diferença tecnológica produz uma diferença política. Se o ambiente digital passou a ocupar parcela relevante da formação de crianças e adolescentes, a pergunta sobre como esse ambiente é desenhado deixa de pertencer exclusivamente às empresas que o controlam.

É exatamente essa mudança que começa a aparecer nas legislações. Desde dezembro de 2025, a Austrália exige que diversas plataformas adotem medidas razoáveis para impedir que menores de 16 anos mantenham contas em serviços como Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, Snapchat e X.

A experiência ainda enfrenta problemas de implementação e verificação de idade, mas representa uma ruptura importante com o princípio de que bastaria colocar uma idade mínima nos termos de uso e transferir a responsabilidade para o usuário. [5]

O Brasil escolheu caminho diferente, mas igualmente significativo. A Lei nº 15.211/2025, o chamado ECA Digital, entrou em vigor em março de 2026 e estabeleceu obrigações relacionadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, incluindo aferição de idade, supervisão parental, publicidade, tratamento de dados e mecanismos destinados à prevenção de riscos. A legislação também impôs obrigações de transparência a grandes plataformas acessadas por esse público.

Empresas com mais de um milhão de usuários menores de 18 anos deverão apresentar relatórios sobre denúncias, moderação, identificação de contas infantis e medidas de proteção, sendo que o primeiro desses relatórios deverá ser publicado até 17 de setembro de 2026. [6]

Algoritmos de recomendação

A mudança já possui consequências concretas. Em 25 de agosto, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados aplicou à ByteDance, controladora do TikTok, multa de R$ 153,7 milhões por irregularidades no tratamento de dados de crianças e adolescentes, além de determinar a eliminação de dados coletados irregularmente e a adoção de medidas de conformidade.

Um dia depois, o governo brasileiro ajuizou ação contra o Discord cobrando R$ 500 milhões por alegadas falhas relacionadas à proteção de menores. São casos juridicamente diferentes e que evidentemente precisarão respeitar contraditório, defesa e devido processo, mas a direção política é bastante clara: a infância digital entrou definitivamente na agenda regulatória. [7]

É nesse cenário que a frase “a conta está chegando” ganha significado maior. Não se trata de comemorar multas contra empresas de tecnologia nem de transformar Zuckerberg em personagem de uma cruzada moral contra redes sociais. Seria simplista.

O que está acontecendo é uma correção, ainda inicial, na distribuição econômica dos riscos. Durante muito tempo, as plataformas puderam capturar quase integralmente os benefícios financeiros produzidos pelo aumento do engajamento, enquanto famílias e sociedade assumiam boa parte dos efeitos negativos decorrentes do uso inadequado ou excessivo.

A regulação começa a afirmar que quem possui capacidade de desenhar o ambiente também possui responsabilidade sobre alguns dos riscos previsíveis produzidos por esse desenho.

Esse debate ficará ainda mais complexo com a inteligência artificial. Algoritmos de recomendação já conseguem conhecer preferências e adaptar conteúdos; sistemas de IA poderão estabelecer relações muito mais individualizadas, conversar continuamente com crianças, compreender vulnerabilidades, reconhecer estados emocionais e construir experiências capazes de parecer progressivamente pessoais.

Se a primeira geração da economia da atenção aprendeu a recomendar aquilo que poderia nos manter olhando para uma tela, a próxima poderá aprender a conversar conosco para impedir que desejemos deixá-la.

Por isso, a questão dos nossos filhos não pode ser reduzida ao número de horas em frente ao celular. Ela revela algo muito maior sobre o tipo de sociedade que estamos construindo.

A Era da Desatenção surge quando a capacidade humana de atenção deixa de ser apenas disputada e passa a ser sistematicamente intermediada por modelos econômicos cujo desempenho depende da intensidade dessa disputa. A infância apenas torna essa contradição impossível de esconder.

Mark Zuckerberg provavelmente continuará bilionário. A Meta continuará uma das maiores empresas do mundo. TikTok, YouTube, Instagram e as plataformas que ainda surgirão continuarão fazendo parte da vida de nossos filhos. Não se trata de imaginar um retorno a uma infância analógica que já não existe.

O desafio político e econômico é outro: impedir que inovação signifique liberdade para privatizar os ganhos produzidos pela captura da atenção enquanto seus custos são socializados.

Durante anos perguntamos quanto valia a atenção de nossos filhos. Talvez tenhamos começado, finalmente, a perguntar quanto custa a desatenção deles. E essa conta está apenas começando a chegar.

Fontes e referências para edição
[1] Reuters, 26 ago. 2026. Meta reaches $18 billion settlements over children’s social media addiction.
[2] Meta Platforms, resultados do segundo trimestre de 2026.
[3] U.S. Surgeon General, Social Media and Youth Mental Health.
[4] CETIC.br / NIC.br, TIC Kids Online Brasil 2025.
[5] eSafety Commissioner, Austrália, regras de restrição etária para redes sociais.
[6] ANPD, ECA Digital – Lei nº 15.211/2025.
[7] ANPD, decisão envolvendo TikTok/ByteDance, 25 ago. 2026; referências públicas sobre medidas brasileiras

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