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O esgotamento histórico do lulismo

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Lula da Silva em ato político quando iniciava a sua carreira política/Arquivo/CPDoc JB

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O Brasil do pós-polarização não retornará ao ambiente pactuado de 2010, mas se estruturará sobre uma sociabilidade urbana fragmentada.

Por Victor Missiato – SP

A cultura política brasileira passa por uma transformação silenciosa, mas definitiva. Para compreender as incertezas eleitorais contemporâneas e os sinais de esgotamento do lulismo, é indispensável resgatar uma seminal reflexão do sociólogo Luiz Werneck Vianna, presente em seu texto “Revolução passiva: americanismo e iberismo no Brasil”, publicado em 1997.

Há três décadas, ao analisar as encruzilhadas da democratização, Werneck Vianna apontou para a complexa transição entre uma matriz cultural “iberista” — pautada pelo estatismo, pela tutela pública e pelo corporativismo — e uma vertente de inspiração “americanista”, marcada pelo pragmatismo, pela autonomia individual e pelo protagonismo da sociedade civil organizadora do mercado.

O lulismo consagrou-se no poder como a expressão mais bem-sucedida de uma modernização conciliadora. Ao combinar inclusão social pelo consumo com a manutenção do pacto com o setor financeiro e as elites políticas tradicionais, o projeto lulista alcançou o seu ápice até 2010.

Tratava-se de um “reformismo fraco” que promoveu a ascensão material sem alterar as estruturas do Estado, viabilizando um consenso de massas que parecia inabalável.

Contudo, a partir das jornadas de 2013 e da subsequente crise econômica, essa gramática começou a dar sinais evidentes de esgotamento. A nova classe média emergente passou a demandar bens públicos de qualidade, segurança e uma nova postura ética, enquanto o tecido social se transformava profundamente.

A transição demográfica e religiosa, com a rápida expansão do segmento evangélico periférico, consolidou uma cultura de autogestão, empreendedorismo e conservadorismo nos costumes. A tutela estatal perdeu o seu apelo simbólico, dando lugar à ética da prosperidade e ao indivíduo proprietário.

O reflexo desse desgaste atinge hoje a própria base de sustentação do lulismo. Pesquisas recentes para governos estaduais em redutos históricos, como Ceará, Pernambuco e Bahia, indicam uma erosão no automatismo eleitoral.

O voto de lealdade cede espaço ao voto pragmático e concorrencial, mostrando que a antiga hegemonia regional do campo progressista já não opera como escudo impermeável.

Os desafios eleitorais contemporâneos desenham um cenário de profunda incerteza. O que se avizinha nas urnas representa mais do que uma disputa conjuntural: é o tira-teima entre duas forças políticas que hegemonizaram a última década, o lulismo e o bolsonarismo.

A mudança de cultura política ensaiada por Werneck Vianna ganha contornos claros de consolidação. O Brasil do pós-polarização não retornará ao ambiente pactuado de 2010, mas se estruturará sobre uma sociabilidade urbana fragmentada, em que a capacidade de construir hegemonias de longo prazo tornou-se o maior dilema do poder.

Esse quadro teórico ganha concretude imediata ao se observar o recente empate numérico de 41% a 41%, entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, apontado pela pesquisa Quaest para o segundo turno presidencial. Longe de ser um dado meramente estatístico, a igualdade nas intenções de voto atua como o catalisador de um tensionamento extremo na reta final da disputa, impondo dinâmicas decisivas sobre o comportamento das campanhas e do eleitorado nas últimas semanas.

E, independentemente do resultado final das eleições presidenciais, o que se configura, inclusive na região Nordeste, é a inviabilidade de se conviver uma política de conciliação em um tecido social hipermoderno que luta por um novo tipo de emancipação e representação social.

(Victor Missiato é professor de História do Colégio Mackenzie Tamboré e doutor em História)

 

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