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A IA vai nos matar? Como e onde? (ParteII)

As organizações militares já estão adotando a IA em seus recursos para o teatro de operações/Arquivo/Almox Militar

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Não é necessário imaginar uma máquina consciente, dotada de vontade própria e determinada a manipular seres humanos.

Por Charles M. Machado – SC

Na primeira parte desta reflexão, a pergunta sobre se a inteligência artificial poderá nos matar serviu menos como previsão de um futuro apocalíptico do que como ponto de partida para uma questão mais próxima e, justamente por isso, mais difícil de perceber. A inteligência artificial chega a uma sociedade que já atravessou uma profunda transformação na maneira como produz, distribui e consome informação.

Durante duas décadas, a economia digital aperfeiçoou mecanismos destinados a capturar nossa atenção; o resultado paradoxal foi uma sociedade exposta a tantos estímulos que passou a experimentar a fragmentação da própria capacidade de concentração.

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É nesse ambiente, que denomino Era da Desatenção, que surge uma tecnologia capaz não apenas de selecionar aquilo que vemos, mas também de interpretar informações, construir argumentos, recomendar caminhos e participar crescentemente das decisões que tomamos.

Essa mudança desloca o centro do problema. A discussão deixa de envolver apenas aquilo que a inteligência artificial é capaz de fazer sozinha e passa a incluir aquilo que pessoas, empresas, governos e instituições poderão fazer por meio dela. Não é necessário imaginar uma máquina consciente, dotada de vontade própria e determinada a manipular seres humanos.

Os incentivos econômicos, políticos e estratégicos que já organizam a sociedade são suficientes para transformar sistemas cada vez mais eficientes em instrumentos de persuasão, competição e poder.

A máquina não precisa desejar que alguém compre, vote, invista ou permaneça conectado; basta que tenha sido programada ou orientada para maximizar determinado resultado. A história econômica demonstra que aquilo que pode ser convertido em vantagem competitiva tende, cedo ou tarde, a ser explorado.

O desafio regulatório passa, então, a ser determinar até onde essa exploração poderá avançar quando o objeto econômico já não for somente nossa atenção, mas também nossa capacidade de decidir.

Nada disso significa que os riscos físicos mais graves devam ser descartados. Pesquisadores e antigos integrantes das grandes empresas de inteligência artificial vêm alertando para possíveis usos em ataques cibernéticos, infraestruturas críticas, sistemas militares e pesquisas biológicas, ao mesmo tempo em que defendem auditorias independentes, limites contratuais e mecanismos regulatórios capazes de reduzir a dependência da ética individual dos desenvolvedores ou da autorregulação das empresas.

Inteligência artificial autônoma

O International AI Safety Report 2026 adota uma postura mais cautelosa ao distinguir falhas presentes de cenários futuros de perda efetiva de controle. Segundo essa abordagem, cenários extremos dependeriam de uma combinação de capacidades muito mais avançadas, comportamentos voltados a contornar controles e ambientes de implantação que oferecessem oportunidades concretas para a produção de danos.

Essa distinção é importante porque permite enfrentar riscos reais sem transformar hipótese em fato. Os sistemas atuais erram, produzem informações falsas, podem ser empregados em atividades criminosas e apresentam limitações conhecidas. Isso é diferente de afirmar que uma inteligência artificial autônoma esteja prestes a dominar a humanidade. A ausência de certeza sobre o cenário mais extremo, entretanto, não elimina a necessidade de governança.

Aviação, medicamentos, energia nuclear e sistema financeiro são submetidos a regras justamente porque sociedades organizadas não esperam que a catástrofe aconteça para discutir segurança. A inovação tecnológica não deixa de ser inovação quando é regulada; em muitos casos, é a confiança produzida por regras minimamente previsíveis que torna possível sua adoção em escala.

O problema regulatório da inteligência artificial é particularmente complexo porque os sistemas mais avançados não são produtos convencionais. Eles podem ser atualizados rapidamente, incorporados a serviços de terceiros e utilizados em contextos muito diferentes daqueles para os quais foram originalmente concebidos. Isso desloca a discussão de uma regulação puramente estática para uma governança permanente de risco, na qual auditoria, rastreabilidade, responsabilidade e supervisão precisam acompanhar a evolução dos próprios modelos.

Em vez de uma oposição simplista entre inovação e controle, o desafio é construir instituições capazes de permitir o avanço tecnológico sem transformar toda a sociedade em campo de experimentação involuntária.

O debate se torna ainda mais difícil porque a inteligência artificial não está sendo desenvolvida em laboratório isolado, mas em ambiente de intensa competição empresarial e geopolítica. A disputa estratégica entre Estados Unidos e China envolve semicondutores, centros de dados, modelos avançados, pesquisadores e capacidade computacional.

O AI Index 2026, da Universidade Stanford, mostra a dimensão econômica dessa corrida ao registrar a aceleração do investimento corporativo global em inteligência artificial e a liderança privada norte-americana, embora os próprios pesquisadores ressalvem que os números privados não capturam integralmente o financiamento público e outros mecanismos existentes na China. A IA, portanto, deixou de ser apenas uma tecnologia emergente para se tornar infraestrutura de poder econômico e estratégico.

Surge daí um dilema clássico. Mesmo que uma empresa considere prudente avançar mais lentamente, sabe que outra poderá ocupar seu lugar; mesmo que um país deseje impor padrões mais rígidos, teme que o concorrente estratégico continue avançando. Quando todos acreditam que não podem reduzir a velocidade porque alguém continuará correndo, a racionalidade individual pode produzir irracionalidade coletiva.

Cada participante possui razões econômicas ou estratégicas compreensíveis para acelerar, mas o resultado conjunto pode aumentar riscos que nenhum deles gostaria de assumir isoladamente. É por isso que a governança da inteligência artificial dificilmente poderá depender apenas da boa vontade das empresas ou de decisões nacionais desconectadas umas das outras.

Inteligência artificial notebook mãos Misto Brasília
A inteligência artificial já faz parte de nosso cotidiano/Arquivo/Alura

Afetará milhões de pessoas

A corrida por liderança tecnológica também produz uma consequência menos evidente: segurança pode ser interpretada como custo de oportunidade. Uma auditoria que atrasa o lançamento de um modelo, uma obrigação de teste que aumenta despesas ou uma limitação imposta a determinado uso podem parecer, do ponto de vista de uma companhia ou de um Estado, vantagens concedidas aos concorrentes.

O mesmo mecanismo já apareceu em outros momentos da história econômica, mas ganha aqui uma dimensão inédita pela velocidade de evolução dos sistemas e pela concentração da infraestrutura necessária para desenvolvê-los. O problema deixa de ser apenas tecnológico e passa a envolver política industrial, defesa, energia, cadeias globais de semicondutores e soberania digital.

Existe, porém, uma forma muito mais imediata pela qual a inteligência artificial afetará milhões de pessoas: a transformação do trabalho. Nesse ponto, previsões grandiosas sobre o fim dos empregos precisam ser tratadas com cuidado.

A Organização Internacional do Trabalho estima que cerca de um em cada quatro trabalhadores no mundo exerce ocupação com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa, mas ressalta que, no estágio atual, a transformação das ocupações é um resultado mais provável do que sua substituição integral.

A pergunta econômica relevante, portanto, não é apenas quantos empregos desaparecerão, mas como será distribuído o ganho de produtividade que pode surgir dessa tecnologia, e claro é preciso uma dose de otimismo para ver essa benevolência, afinal na história das estruturas econômicas as mazelas socias são sempre terceirizadas para o Estado, e qual Estado?

Esses dificilmente vão resultar em melhores salários, preços menores, jornadas mais curtas e novos investimentos, eles devem sim concentrar mais renda e ampliar a distância entre proprietários das tecnologias e aqueles que apenas convivem com seus efeitos. A distribuição da produtividade é uma questão institucional, tributária, educacional, concorrencial e política. Logo menos empregos é a morte lenta de muitos.

É aqui que o tema retorna à Era da Desatenção. Durante muito tempo, consideramos progresso a eliminação de atritos: viajar mais rápido, comunicar-se imediatamente, pesquisar em segundos e automatizar tarefas repetitivas. Grande parte da civilização moderna foi construída exatamente dessa maneira, e não há qualquer razão para romantizar dificuldades desnecessárias. Entretanto, nem todo esforço é desperdício e nem toda demora é ineficiência.

Ler um livro inteiro quando existe um resumo, construir um argumento em vez de receber um pronto, aprender a fazer um cálculo mesmo quando uma máquina o realiza melhor ou sustentar uma conversa com alguém que pensa de maneira diferente podem parecer atividades improdutivas sob a ótica estrita da velocidade, mas fazem parte da construção da autonomia intelectual.

A inteligência artificial tende a reduzir precisamente esses atritos cognitivos. Isso será extremamente útil em inúmeras situações, mas também poderá modificar a relação entre conhecimento e esforço. Se cada dúvida puder ser respondida imediatamente, se todo texto puder ser resumido, se todo argumento puder ser produzido sob demanda e se toda escolha puder vir acompanhada de uma recomendação personalizada, o risco não está apenas na qualidade da resposta fornecida pela máquina.

Está também na possibilidade de reduzirmos progressivamente o exercício das capacidades que utilizamos para avaliar essa resposta. A dependência não surgiria como imposição externa, mas como uma sequência de decisões razoáveis, tomadas em nome de conveniência, eficiência e economia de tempo.

Talvez a inteligência artificial não nos mate da forma imaginada pela ficção científica. Poderemos enfrentar acidentes, utilizações criminosas ou aplicações militares capazes de matar pessoas, e esses riscos precisam ser tratados seriamente. A transformação mais profunda, porém, pode ocorrer de maneira muito menos cinematográfica.

Poderemos continuar biologicamente vivos, economicamente produtivos e tecnologicamente conectados enquanto transferimos progressivamente às máquinas parcelas relevantes daquilo que antes definia nossa autonomia.

A perda de espaço do humano não ocorreria em um único momento dramático; aconteceria por pequenas delegações sucessivas, cada uma delas racional, confortável e aparentemente inofensiva.

É por isso que a narrativa da extinção, embora não deva ser desprezada, não pode monopolizar o debate. A pergunta sobre uma eventual superinteligência que escape ao controle humano corre o risco de retirar atenção daquilo que já está diante de nós: concentração econômica, dependência tecnológica, transformação do trabalho, capacidade de persuasão algorítmica, militarização, erosão de competências, assimetria informacional e delegação crescente das decisões.

O paradoxo é particularmente adequado à Era da Desatenção. Depois de duas décadas nas quais a economia digital aprendeu a monetizar nossa atenção, estamos construindo uma tecnologia capaz de se beneficiar exatamente da dificuldade que passamos a ter para exercê-la.

A grande questão do século XXI talvez não seja saber se algum dia uma máquina desejará controlar os seres humanos, mas determinar se os próprios seres humanos, em nome da velocidade, da produtividade e da conveniência, entregarão voluntariamente às máquinas parcelas crescentes de sua capacidade de interpretar, julgar e escolher.

Na Era da Desatenção, o risco mais inquietante da inteligência artificial talvez não seja o nascimento de uma máquina com vontade própria, mas o desenvolvimento de uma sociedade que, aos poucos, considere desnecessário exercer plenamente a sua. Nesse cenário, não teríamos sido derrotados pela inteligência das máquinas; teríamos simplesmente deixado de exercer uma parte da nossa.

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