A figura do falso patriota é sempre igual. Se enrola na bandeira nacional, mas na primeira oportunidade…
Por Evandro Menezes de Carvalho – RJ
Recentemente estive em Changchun, no nordeste da China. E visitei um palácio que se transformou em um museu: o Museu do Palácio do Estado Fantoche Manchukuo. A casa de um homem que usou a bandeira, a tradição e o próprio povo para entregar a soberania do seu país – a China – de mão beijada para uma potência estrangeira. No caso, o Japão.
Na década de 1930, o ex-imperador chinês Puyi queria uma coisa: manter o poder da sua família a qualquer custo. Ele não se importava com a dor do povo.
Para se blindar e continuar relevante, ele se vendeu. Fez alianças com forças externas invasoras e aceitou ser o chefe de um regime fantoche em um pedaço do território chinês que chamou de Manchukuo.
Por fora, ele falava em ‘restaurar a grandeza da nação’. Mas por dentro? Por dentro, esse palácio era uma vergonha, uma espécie de gaiola de ouro. Visitei e achei meio deprimente.
Enquanto ele ostentava medalhas e fazia discursos patrióticos, os japoneses controlavam cada canetada dele. Puyi rifou as riquezas do país e a dignidade do seu povo em troca de apoio internacional e proteção para o seu clã.
É fascinante observar como a história se repete. A figura do falso patriota é sempre igual. Se enrola na bandeira nacional, mas na primeira oportunidade… corre para o exterior para pedir intervenção.
Ao final da Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa, que coincide com o final da Segunda Guerra Mundial, Puyi, na condição de testemunha de acusação, compareceu ao Tribunal de Tóquio, em 1946, que julgou os criminosos de guerra do Japão, e depôs contra os militares japoneses.
Ele admite que foi uma marionete nas mãos dos japoneses durante o seu mandato como imperador deste estado fantoche Manchukuo.
Com a vitória comunista e a fundação da República Popular da China, em 1949, Puyi será detido como criminoso de guerra e colaborador dos japoneses. Quase uma década depois é anistiado. Mas viveu como um cidadão comum. Trabalhou como jardineiro no jardim botânico de Pequim e como arquivista.
Em sua autobiografia, Puyi admitiu ser culpado de traição perante a lei. E morreu como um cidadão como qualquer outro. Assim é uma República séria. Nao há nobres nem reis, mas todos iguais perante a lei.
A história não costuma ser generosa com quem conspira contra o próprio povo. O regime de Puyi ruiu. Ele entrou para os livros de história não como o grande líder que fingia ser, mas como um símbolo de covardia e submissão.
Histórias de lideranças que usam o patriotismo como disfarce enquanto entregam o próprio país sempre terminam do mesmo jeito: no lixo da história e no julgamento do povo. Visitar este museu é olhar para o passado da China e, também, um lembrete sobre o presente de qualquer nação.
Onde a soberania é levada a sério, o traidor não encontra refúgio, apenas o peso das próprias escolhas.”
(Evandro Menezes de Carvalho é professor universitário)
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