Passou a integrar um complexo sistema tecnológico de coleta, transmissão, totalização, fiscalização e divulgação.
Por Luiz Bandeira da Rocha Filho – DF
Tecnologia admirada. Transparência indispensável. A urna eletrônica brasileira tornou-se uma das tecnologias mais importantes da administração eleitoral do país.
Sua principal virtude é a eficiência. Em poucas horas, milhões de votos, inclusive aqueles provenientes de regiões distantes e de difícil acesso, são incorporados a uma totalização nacional. É uma realização tecnológica que merece reconhecimento.
Mas eficiência não substitui transparência. E quanto maior é a confiança depositada em uma tecnologia, maior deve ser a disposição de explicar publicamente aquilo que possa gerar dúvida.
Essa é a questão que se coloca novamente diante dos brasileiros. Da urna transportada à urna conectada.
Nas primeiras experiências de votação eletrônica, a logística eleitoral brasileira ainda dependia fortemente do deslocamento físico dos equipamentos e dos resultados para centros urbanos que possuíam melhores condições tecnológicas de transmissão e processamento.
Com o passar dos anos, a Justiça Eleitoral aperfeiçoou seus procedimentos, sua infraestrutura e seus mecanismos de totalização.
A urna eletrônica deixou de ser apenas um equipamento de votação e passou a integrar um complexo sistema tecnológico de coleta, transmissão, totalização, fiscalização e divulgação.
É justamente por isso que a discussão atual não deveria estar limitada à pergunta sobre se a urna “funciona”.
A pergunta contemporânea é outra: o cidadão consegue compreender, acompanhar e fiscalizar suficientemente aquilo que o sistema está fazendo?
Em 2014, a eleição presidencial foi marcada por uma disputa extremamente apertada entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.
Durante a apuração, os números foram se alterando à medida que novas urnas eram incorporadas. O TSE anunciou a reeleição de Dilma Rousseff quando 98% das urnas haviam sido apuradas, registrando 51,45% para Dilma e 48,55% para Aécio naquele momento.
Posteriormente, o resultado provisório totalizado pelo TSE registrou 51,64% para Dilma e 48,36% para Aécio.
A mudança dos percentuais durante a apuração é, por si só, perfeitamente explicável pela ordem em que os resultados das diferentes regiões são incorporados.
Mas uma eleição apertada produz uma consequência inevitável: cada interrupção, cada mudança abrupta e cada ausência de explicação alimenta perguntas.
E perguntas não são necessariamente acusações.
Nos anos de 2018 e 2022, a eleição passou a ser, também, uma disputa de confiança e em 2018, a polarização política atingiu um nível extraordinário.
Em 2022, a divisão da sociedade tornou-se ainda mais intensa. Manifestações populares, pesquisas, percepções de rua e previsões eleitorais passaram a ser utilizados por diferentes grupos como elementos para sustentar suas próprias expectativas.
Existe uma distinção que precisa ser preservada: manifestação popular não é pesquisa eleitoral; pesquisa não é resultado; percepção social não é prova de voto.
A urna não pode ser julgada pela quantidade de pessoas que aparecem nas ruas. Da mesma forma, uma multidão em uma manifestação não pode ser convertida matematicamente em votos.
A única coisa que deveria encerrar a discussão é a existência de um processo eleitoral suficientemente transparente e auditável, para que qualquer cidadão possa compreender como o resultado foi produzido.
O Congresso Nacional e notáveis do Poder Judiciário não admitem a comprovação do voto impresso depositado em urna física para fins, exclusivo, de eventual necessidade de auditoria.
É o verdadeiro desafio que se impõe em nome da transparência.
Agora, em 2026, a eleição presidencial voltou a produzir uma situação peculiar, trazendo uma nova pergunta e a velha desconfiança.
Flávio Bolsonaro começou a apuração em posição de liderança e, em determinado momento, ultrapassou 50% dos votos válidos. Com 21,96% das seções apuradas, por exemplo, aparecia com 51,07%.
Depois, porém, à medida que outras regiões foram incorporadas à totalização, esse percentual caiu. Com 64,81% das seções totalizadas, Flávio aparecia com 49,58%. Com 84,96%, estava em 48,47%.
O resultado final do primeiro turno registrou 47,03% para Flávio Bolsonaro e 45,16% para Lula da Silva, levando os dois ao segundo turno.
Portanto, é importante registrar: o fato de um candidato ultrapassar 50% durante a apuração não significa que tenha vencido a eleição.
O percentual pode variar conforme entram os votos de diferentes regiões. Isso é matematicamente normal.
Mas houve uma questão tecnológica que merecia explicação, diante do surgimento de inusitado fenômeno.
O painel de resultados para presidente permaneceu sem atualização por um período significativo. Segundo registro publicado na noite da eleição, às 19h54 o painel ainda indicava como última atualização 19h06min33s, quando 64,81% das seções já haviam sido totalizadas.
É justamente nesse ponto que a discussão precisa abandonar as redes sociais e voltar para a instituição. Porque existem duas perguntas completamente diferentes:
Primeira: por que o percentual de um candidato caiu de mais de 50% para menos de 50%?
Essa pergunta possui uma explicação matemática: diferentes regiões foram sendo incorporadas à totalização.
Segunda: por que o painel de divulgação ficou sem apresentar novas atualizações durante determinado intervalo?
Essa é uma pergunta tecnológica e operacional. E merece uma resposta oficial, objetiva e verificável.
Afinal, como pode uma eleição continuar sendo apurada enquanto uma determinada tela permanece sem atualização?
É aqui que aparece a perplexidade do cidadão comum.
Se existem resultados para governador, senador, deputado federal e deputado estadual sendo progressivamente divulgados, como pode haver diferença na atualização da informação presidencial?
A resposta pode ser absolutamente técnica. Pode decorrer de processamento, transmissão, infraestrutura, banco de dados, critérios de atualização, sincronização, contingência ou qualquer outra razão operacional.
Mas há uma palavra que não pode faltar: explicação.
O eminente político Marco Maciel ensina que exigir explicação, gera desconforto. A Justiça Eleitoral dispõe de competência técnica para fornecer essa explicação.
O próprio TSE informa que a divulgação dos resultados ocorre em tempo real e mantém mecanismos destinados ao acompanhamento e à fiscalização dos resultados.
Além disso, a Justiça Eleitoral disponibiliza os Boletins de Urna e dados de resultados para consulta pública.
Portanto, a pergunta não deveria ser tratada como uma ameaça à democracia.
Ao contrário. Perguntar é parte da democracia.
Outro elemento entrou nessa eleição: os mercados de previsão. E a Polymarket?
A Polymarket apresentou, em diferentes momentos, probabilidades relacionadas à disputa presidencial. É importante, entretanto, compreender o que esses números significam.
Uma cotação de mercado não é resultado eleitoral.
Ela representa uma expectativa formada pelas negociações dos participantes daquele mercado.
Pode ser uma informação interessante para observar expectativas, mas não substitui urna, boletim de urna, totalização oficial ou auditoria.
Portanto, se a Polymarket indicava uma determinada expectativa e a apuração oficial caminhava em outra direção, isso não constitui, por si só, evidência de irregularidade.
Mas também pode despertar uma pergunta legítima: Por que as expectativas de mercado e a percepção de determinados segmentos da sociedade estavam tão distantes do resultado que se consolidou?
Existe uma antiga máxima segundo a qual não basta ser honesto; é preciso também parecer honesto. A mesma lógica pode ser aplicada às instituições eleitorais.
Não basta que o sistema seja seguro. É preciso que ele seja percebido como seguro.
Não basta que a totalização esteja correta. É preciso que o cidadão consiga compreender como ela chegou ao resultado.
Não basta afirmar que existem mecanismos de auditoria. É preciso que esses mecanismos sejam conhecidos, acessíveis e compreensíveis.
E não basta que uma interrupção tecnológica tenha uma justificativa técnica. É preciso que essa justificativa seja apresentada no momento em que a dúvida surge.
A urna ordeira. Talvez seja justamente por sua eficiência que a urna eletrônica brasileira mereça uma cobrança ainda maior.
Uma tecnologia admirada por sua capacidade de processar milhões de votos em poucas horas não pode permitir que um simples intervalo de atualização produza horas de especulação.
A tecnologia pode ser excelente. O sistema pode ser seguro. A totalização pode estar correta. E, ainda assim, a comunicação institucional pode ser insuficiente.
Tais observações não são contraditórias. A democracia não precisa de uma urna suspeita. Também não precisa de uma urna intocável.
Precisa de uma urna ordeira: uma urna cujo funcionamento seja acompanhado por regras claras, dados verificáveis, mecanismos de auditoria e explicações públicas capazes de responder às dúvidas legítimas da sociedade.
A questão, portanto, não é pedir que o cidadão acredite. É permitir que ele confira.
Porque confiança democrática não deveria nascer da ausência de perguntas. Deveria nascer da capacidade de respondê-las.
E talvez esta seja a pergunta mais importante deixada pela eleição de 2026: se a urna eletrônica é tão segura, eficiente e auditável quanto afirma a Justiça Eleitoral, por que não explicar imediatamente, de forma técnica e transparente, cada episódio capaz de despertar dúvida sobre a divulgação dos resultados?
A resposta não diminuiria a urna. Ao contrário. A tornaria ainda mais forte.
