O ataque às urnas eletrônicas e o 8 de janeiro de 2023 mostram uma descrença produzida politicamente, com ajuda de plataformas.
Por Bruna Andrade – SP
O primeiro turno de 2026 terminou com 33,4 milhões de eleitores ausentes, 21,08% do eleitorado apto, a maior abstenção em eleições gerais desde 1998, segundo o TSE. Brancos e nulos somaram 4,77% dos votos para presidente, quase 6 milhões.
Aqui, convém olhar a série histórica antes de falar em recorde. Em 2022, esses votos ficaram em 4,41%, o menor patamar desde 1994. Em 1998, chegaram a 18,7%. O dado atual supera o anterior, mas está longe de ser inédito.
Como o voto é obrigatório, branco e nulo permitem comparecer sem delegar, e o nulo pode reunir protesto, erro ou desinformação. Em 2022, a polarização foi apontada como causa da queda de brancos e nulos. Em 2026, a mesma polarização aparece como explicação para o desânimo.
Por isso, brancos e nulos medem mal a descrença, porque reúnem ações de natureza distinta.
Quem se afasta tem perfil: em 2022, 55% das abstenções vieram de eleitores com no máximo o ensino fundamental. As mulheres fazem o movimento contrário: são maioria do eleitorado e comparecem mais.
Câmara e Senado seguem longe de refletir essa maioria, e o mesmo vale para pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+. Elas votam, mas não se veem eleitas.
O porquê passa pela distância entre o voto e a vida. Direitos civis e políticos têm efetividade limitada quando direitos econômicos e sociais não se materializam. A Emenda Constitucional 95, de 2016, que congelou gastos públicos, marcou o desfinanciamento de políticas que chegam primeiro, ou deixam de chegar, às mulheres pobres e negras.
Quando o que se decide nas eleições não alcança o cotidiano, a desconfiança cresce.
Parte dessa desconfiança é fabricada. O ataque às urnas eletrônicas e o 8 de janeiro de 2023 mostram uma descrença produzida politicamente, com ajuda de plataformas que lucram com a desinformação.
Sobre esse terreno, projetos antissistema, em especial a extrema direita, se apresentam como alternativa ao eleitorado que vê o Partido dos Trabalhadores mais como parte do sistema estabelecido do que como promessa de mudança.
Uma democracia medida apenas pela presença na urna não enxerga quem vota sem ser representada nem quem se ausenta sem ter sido ouvido.
Em 2026, ficou à mostra a distância entre o direito de votar e a possibilidade de alterar, pelo voto, a própria vida. Enquanto ela existir, o comparecimento seguirá sendo um indicador insuficiente para a saúde democrática.
(Bruna Andrade Irineu é assistente social, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisadora em políticas públicas, gênero e direitos humanos)
