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As big techs no centro das eleições brasileiras

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A captura dos dados pelas big techs dos usuários está cada vez mais aperfeiçoado/Arquivo/Agência Senado

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Soluções simplistas e a canalização da cólera em voto foram receitas que fizeram, por exemplo, o Movimento 5 Estrelas explodir na Itália.

Por Davi Carlos Acácio

Durante a Primavera Árabe, entre 2010 e 2013, redes sociais como o Facebook e o Twitter se tornaram amplificadores de vozes. Imagens de violência policial, relatos de corrupção e convocações para protestos podiam alcançar milhares de pessoas sem depender de uma emissora de televisão ou de um jornal.

Atualmente, essa possibilidade continua existindo, porém, com uma condição: os conteúdos são mediados por sistemas de recomendação que decidem quais publicações aparecem primeiro, quais vídeos são sugeridos e quais temas recebem mais exposição.

A diferença é que o usuário não vê necessariamente aquilo que seus contatos publicam, muito menos uma amostra representativa do debate público. Ele vê uma seleção produzida por algoritmos que consideram sinais como tempo de visualização, compartilhamentos, comentários e interesses presumidos.

“Após o escândalo da Cambridge Analytica, o Congresso dos EUA convocou Mark Zuckerberg para prestar depoimento em 2018. A partir desse momento de pressão, as big techs aproveitaram as críticas para reduzir drasticamente o alcance orgânico das postagens”, explica Caio Almendra, cofundador do Instituto Brasileiro de Ciência de Dados (Bi0s), sobre a mudança no que é mostrado nessas redes sociais.

O ambiente também passou a ser contaminado por propagação de fake news, em especial, com a evolução de recursos de inteligência artificial (IA). As plataformas, entretanto, não parecem querer eliminar o inço, uma vez que a mobilização de afetos como medo e raiva alavancam seu modelo econômico. Em cenários cujo pano de fundo são disputas políticas, isso fica evidenciado. No momento, o Brasil é um exemplo indubitável.

“Estamos na era da economia da atenção”, destaca o especialista. Esse modus operandi funciona da seguinte forma: atores tentam capturar o usuário o mais rápido possível, ou seja, nos primeiros segundos de visualização. Assim, discursos reducionistas geram muito mais apelo.

“O discurso da extrema-direita de fato trabalha com afetos, como o ódio, a irritação e a frustração, que se adequam melhor ao funcionamento normal dos algoritmos. Além disso, o seu discurso demasiadamente simplificado — que transforma problemas sociais complexos em responsabilidade de minorias ou em teorias da conspiração — tem uma grande adesão ao formato fragmentado e curto das redes sociais”, aponta o analista.

Soluções simplistas e a canalização da cólera em voto foram receitas que fizeram, por exemplo, o Movimento 5 Estrelas explodir na Itália em 2013. A presença massiva no digital também foi útil na primeira eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e também de Jair Bolsonaro, em 2018, no Brasil.

Muitas transformações ocorreram ao longo dos anos, até que cada vez mais as big techs fossem atores incontornáveis em qualquer processo eleitoral nas democracias participativas.
O brasileiro, por exemplo, passa em média 9 horas e 32 minutos por dia diante das telas, segundo pesquisa da Proxyrack. O país fica atrás apenas da África do Sul, que tem média diária de 9 horas e 38 minutos.

Consequentemente, as campanhas despejaram recursos nessas plataformas a fim de alcançar pessoas para convertê-las em eleitores. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os partidos declararam ter gastado em 2026 cerca de R$ 290 milhões com anúncios nas plataformas da Meta (Facebook, Instagram e Whatsapp). O montante representa mais que o dobro investido em 2022, R$ 129, 7 milhões.

Preferência pela extrema-direita

O Partido Liberal (PL), do candidato à presidência Flávio Bolsonaro, disse ter gasto até aqui R$ 63,7 milhões com a empresa, enquanto o Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concorre à reeleição, destinou R$ 37,9 milhões à big tech.

Ao passo que gastam com as plataformas da Meta, as campanhas também judicializam a disputa no âmbito digital. O TSE tem recebido várias denúncias de ambas as partes: acusações de fake news e favorecimento a um lado, para ficar em alguns exemplos, tem sido citados.

Se nesta corrida eleitoral especificamente há inclinação da gigante de tecnologia a algum lado, não cabe a reportagem apontar. Entretanto, de modo geral, segundo o analista, “não podemos mais ser ingênuos e ignorar que as big techs têm um nítido lado na disputa entre a extrema-direita e as forças políticas mais tradicionais.

Figuras como Elon Musk, Peter Thiel e até Mark Zuckerberg falam abertamente sobre sua preferência pela extrema-direita, inclusive promovendo discursos nazistas, eugenistas e a favor do extermínio de minorias”.

Em meio à crise no Brasil e protestos públicos contra a empresa, acusando-a de interferência no pleito brasileiro, na terça-feira (20), Joel Kaplan, chefe de políticas globais da Meta e principal assessor de Mark Zuckerberg em Washington anunciou que deixará a empresa após 15 anos.

Kaplan foi assessor de George W. Bush e tem vínculos com o Partido Republicano. Ele é apontado, inclusive, por alinhar interesses da empresa com o movimento Make American Great Again (MAGA), de Trump. O diretor é apontado como um dos responsáveis por mudanças como o fim da checagem de fatos nas plataformas e combate à regulação, classificando as medidas como censura e perseguição.

O debate da regulamentação das redes sociais no Brasil, inclusive, pode ser um indicativo para como gigantes de tecnologia, sobretudo a Meta, estejam atuando nas eleições, segundo Almendra.

“A Meta tem preferência pela ‘bancada do clique’, que tem como principal expoente o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

De um lado, temos o deputado atuando ativamente contra propostas de regulamentação das plataformas digitais — como a forte oposição ao PL 2630 (conhecido como PL das Fake News) e a rejeição ao PL 2628/22, que visa regulamentar a proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais —, defendendo uma liberdade irrestrita que beneficia diretamente os lucros das big techs. De outro lado, temos o governo Lula pautando a soberania digital e o ministro Alexandre de Moraes exigindo a responsabilização e a regulamentação do discurso de ódio”, explana.

Nesse contexto, conforme o analista “magicamente, um único vídeo desse deputado alcança visualizações superiores ao total de falantes de português no mundo e não é barrado por indícios de automação ou uso de bots, como costuma acontecer com qualquer outro perfil que apresente esse comportamento métrico atípico. É óbvio que a Meta beneficia o parlamentar, o seu partido e o seu campo político”, acrescenta.

Para o analista, portanto, não se trata de autopromoção infeliz ou sabotagem por parte das big techs: “é um endgame, é o tudo ou nada. Trata-se de uma batalha existencial para as redes sociais no Brasil, na qual arriscar tudo passou a compensar para essas corporações”.

(Davi Carlos Acácio trabalha na Agência Sputnik)

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