A ditadura da magistratura

Compartilhe:

Professor de Teoria Política e Relações Internacionais, ativista da Frente Popular Brasil, António Roberto Espinosa foi também jornalista e guerrilheiro, ex-comandante da Vanguarda Popular Revolucionária contra a ditadura, ao lado de Dilma Rousseff.

Em Portugal a convite da Associação 25 de Abril, da Associação de Estudos de Comunicação e Jornalismo e da Casa da Imprensa, para uma conferência intitulada “Brasil: da ditadura militar ao presidencialismo do impeachment” (esta quinta-feira, às 18h, no Salão Nobre de Casa da Imprensa), falou ao Público sobre a turbulenta realidade brasileira e as possíveis saídas da crise.

Veja os principais pontos da entrevista

– Continuamos a lutar com a velha opressão. Com a velha tradição de um país que se formou sob o colonialismo, que adoptou o escravismo, e cuja herança ainda é essa. Nós não chegámos à democracia. Aliás eu penso a democracia mais em termos gregos, a democracia direta, da praça pública, do sorteio, do que a democracia representativa.

– O Lula representou um compromisso com a direita tradicional. O Lula procurou representar o regime do “ganha-ganha”, em que fazia concessões aos de baixo, mas onde nunca os de cima ganharam tanto. Ele não precisou de fazer essa escolha, porque havia uma conjuntura internacional favorável. Já a Dilma resistiu ao “ganha-ganha” e procurou privilegiar os de baixo.

– A Dilma começou a cair quando criou a Comissão Nacional da Verdade, quando ela propôs um ajuste de contas efetivo, que o governo Lula sempre recusou fazer, com as velhas elites, com a velha ditadura. Ela não propôs sequer a punição, propôs apenas o apuramento [dos crimes cometidos na ditadura militar]. Mas para alguns setores, isso seria uma antessala da punição.

– Eu entendo essa burocracia estatal como uma classe social autónoma que se articula, mas não se subordina sempre às classes economicamente dominantes, embora integre o bloco dessas classes. Mesmo os funcionários subalternos, oprimidos como tal, sentem-se membros dessa burocracia, são solidários com ela. São membros do Estado.

– Então uma alternativa que se coloca hoje é uma ditadura da magistratura, que está colocada, mesmo com eleições diretas. O candidato pode ser o Sérgio Moro, que é o juiz de Curitiba encarregado da operação Lava Jato; pode ser o juiz Joaquim Barbosa, que foi o relator do processo do Mensalão. Qualquer um desses dois, ou eventualmente um terceiro, pode ser candidato em eleições legítimas. Teriam uma grande chance, porque o povo brasileiro sempre soube da corrupção, mas sempre fez questão de imaginar que não seria bem assim. Afinal de contas todos nós pagamos para não entrar na fila, para furar a fila, é o jeitinho brasileiro, uma coisa tolerada. Agora quando isso é revelado, transformado num grande escândalo, a população ficou aturdida: Até fulano? Até beltrano? Não sobra ninguém?

PARTICIPAÇÃO DO LEITOR

Participe desta discussão

Compartilhe sua opinião sobre este assunto. As participações passam por análise editorial antes de qualquer utilização no site.

Seu e-mail não será publicado.
Entre 20 e 3.000 caracteres.

Assuntos Relacionados

Siga o Misto Brasil

Acompanhe em todas as redes

Notícias, vídeos e destaques em tempo real. Escolha sua rede favorita.

Dica: acompanhe também pelo WhatsApp para receber atualizações rápidas.