Para o cientista político Carlos Melo, o governo errou ao atrelar desde o começo o apoio em votações importantes à distribuição de benesses, como cargos e emendas. Esses são recursos finitos, afirma em declaração a André Shalders, da BBC Brasil.
“Essa fonte (de apoio político ao governo) seria mais estável se ela fosse programática desde o princípio, não fisiológica. Se a discussão se desse em torno de ideias, de opinião, se fosse politizada desde o princípio”, diz ele, que é professor do Insper.
O governo ainda gastou muitos desses recursos escassos em votações que não tinham nada a ver com o ajuste fiscal: em agosto e outubro deste ano, os deputados impediram que o Ministério Público investigasse Temer enquanto ele estivesse no cargo, lembra.
“Se o governo tivesse feito essa discussão sobre equidade, sobre privilégios do funcionalismo, desde o começo (Temer assumiu em meados de 2016), teria mais facilidade agora”, diz Melo à reportagem.
O professor usa como exemplo a divisão de cargos no governo: logo depois de assumir o Planalto, o grupo de Michel Temer tinha à disposição, para distribuir, um manancial de postos comissionados (ocupados sob indicação) antes ocupados pelo PT e outros partidos de esquerda. A distribuição de cargos ajudou o governo a colher vitórias no Congresso como a PEC do Teto de Gastos, mas esse estoque parece ter acabado, diz o cientista político.
No entorno de Michel Temer, porém, a ordem agora é desvincular o apoio à reforma de qualquer benesse, e fazer a defesa política da mudança nas regras previdenciárias.
“O deputado que não votar a reforma como veio estará votando com os ricos, e não com os brasileiros que mais sofrem. São os ricos que querem manter a Previdência com está. No ano que vem, com a reforma aprovada, a economia estará voando. A economia será o grande tema positivo da eleição”, diz à BBC Brasil o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), integrante do “núcleo duro” governista na Câmara.
Parte dos deputados que acha que o Planalto errou ao apresentar uma primeira versão, considerada dura, da Reforma da Previdência. O texto original, enviado ao Congresso em setembro passado, restringia o alcance da aposentadoria rural e o Benefício de Prestação Continuada (o BPC, pago a pessoas com deficiência, por exemplo), entre outros.
“A percepção que a sociedade tem da reforma têm sofrido uma profunda transformação. Não há dúvida de que aquele texto inicial, que foi pra cá remetido pelo governo, propunha realmente a diminuição de alguns direitos de pessoas mais pobres. Tudo isso saiu do texto”, disse o deputado Arthur Maia (PPS-BA), relator da reforma.
O governo teria, portanto, superestimado a própria capacidade de articulação política ao propor uma reforma mais pesada do que seria capaz de bancar.
Além disso, problemas de comunicação e de disputa da opinião pública teriam ocorrido.
É consenso até no governo que a primeira fase da campanha publicitária da reforma não surtiu o efeito desejado. As peças, do começo de 2017, tinham como slogan a frase “Previdência. Reformar hoje para garantir o amanhã”. As propagandas usavam dados econômicos, considerados de difícil compreensão e não teriam sido bem entendidas pela população.
“Essa simplificação (de que quem votou pelo impeachment precisaria votar sempre com o governo Temer) eu rejeito. Quem votou no impeachment o fez por acreditar que a Dilma cometeu um crime de responsabilidade, e não para apoiar o Temer. Da mesma forma, eu não votei a favor das denúncias contra Temer por apoiar um eventual governo de Rodrigo Maia (o presidente da Câmara, do DEM-RJ)”, diz o deputado Pedro Cunha Lima (PSDB-PB).
Outro que “mudou de lado” é Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), um dos principais deputados da bancada evangélica da Câmara. Para Sóstenes, pesaram contra a reforma “a proximidade das eleições” – como há um clima de opinião contrário à reforma, muitos deputados temem ser punidos pelos eleitores no ano que vem.
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