A menos de três meses do primeiro turno da eleição presidencial, a indefinição das alianças fez com que a maioria dos partidos empurrassem para o fim do prazo legal a realização das convenções partidárias, informa a Reuters.
A nuvem de incertezas que paira sobre a eleição de outubro se deve a fatores que vão desde as dúvidas em torno do caminho que tomará o PT, diante da provável inelegibilidade do ex-presidente Lula da Silva, líder nas pesquisas, à viabilidade do vice-líder Jair Bolsonaro (PSL), passando pelo alto índice de eleitores ainda indecisos.
“Ao contrário do que sempre aconteceu —mesmo se você pegar 1989, que é a eleição que todo mundo diz que é a mais parecida com essa— a três meses da eleição, que é onde nós estamos, os cenários já estavam todos muito claros”, disse Danilo Gennari, sócio da Distrito Relações Governamentais em Brasília.
O PDT dará a largada do período de convenções nesta sexta-feira (20), mas deverá ainda buscar apoios depois de formalizar Ciro Gomes, e será seguido pelo PSL, de Bolsonaro, no domingo. PSDB, PT, Rede, MDB e Podemos decidiram deixar suas convenções para o início de agosto, perto do prazo final para realização dos encontros no dia 5 de agosto.
“Como os cenários ainda estão muito abertos, faz sentido que os partidos joguem a definição o mais para frente possível para deixar ainda em aberto a possibilidade de, aos 45 do segundo tempo, fechar alguma aliança”, disse Gennari.
A indefinição sobre as alianças eleitorais tem pesado sobre os mercados de câmbio e de juros futuros, uma vez que investidores temem uma mudança drástica na condução da política econômica no próximo mandato.
Muitas negociações – A situação de Lula, preso desde abril em Curitiba para cumprir pena por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo do tríplex no Guarujá (SP), impõe um dilema ao PT. O partido pretende registrar a candidatura do ex-presidente, mas como ele deve ficar inelegível pela Lei da Ficha Limpa, a sigla deverá apostar na capacidade de transferência votos de Lula.
São apontados como possíveis herdeiros da candidatura petista, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o ex-governador da Bahia Jaques Wagner, cujo nome tem sido alvo crescente de negociações dentro do PT.
“A grande questão é: dentro da cadeia, sendo cerceado de todas as formas, como é que ele vai fazer essa transferência?”, argumentou Gennari.
Bolsonaro, por sua vez, chegou a sonhar em ter o senador Magno Malta (PR-ES) como vice. O acerto com o PR daria ainda mais tempo de TV e robustez à estrutura de campanha do capitão da reserva.
Malta, no entanto, preferiu tentar a reeleição ao Senado e as conversas com o PR, do ex-deputado Valdemar Costa Neto, não evoluíram, depois que o PSL se recusou a ceder às exigências da legenda. Assim, Bolsonaro deverá ir para a campanha sem alianças de peso.
Atualmente terceira colocada nas pesquisas, Marina Silva (Rede) também deve engrossar o bloco do chamado “eu sozinho”, já que até o momento, assim como Bolsonaro, não costurou qualquer aliança significativa para a campanha.
Diferentemente de PT, de Bolsonaro e de Marina, o pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, e Ciro têm negociado freneticamente nos bastidores em busca de alianças e cortejado principalmente o chamado blocão, grupo de partidos liderados por DEM e PP.
No momento, Ciro parece mais próximo de assegurar apoio do blocão, o que daria um impulso em termos de tempo de televisão e estrutura de campanha, mas este cenário ainda segue nebuloso e esses apoios podem tanto acabar nas mãos de Alckmin como terminarem divididos entre os dois. O pedetista disputa ainda, com o PT, o apoio do PSB.
Gennari lembra que deve pesar no processo decisório desses partidos também as alianças regionais, que são importantes para a eleição de deputados federais e senadores —principal prioridade eleitoral para siglas como DEM, PP e PR. Por exemplo, lembra ele, o PP é aliado do PT na Bahia, e o DEM é oposição ao governador petista Rui Costa.
Pesa também contra Alckmin, na avaliação de Gennari, a necessidade de caciques partidários fecharem alianças que ajudem na eleição de grandes bancadas no Nordeste, região onde Alckmin tem pouco apelo.
Ao contrário de Ciro, no entanto, o tucano já tem apoios fechados. PSD, PTB, PPS e PV devem formalizar em suas convenções apoio ao ex-governador de São Paulo, o que já renderia por volta de um quinto do tempo de TV. Gennari, no entanto, relativiza a façanha.
“O PSD é um partido de expressão, o PTB também. O PPS está praticamente dizimado, o PV também. Então em termos de tempo de TV, de recursos, de capilaridade… é importante em termos de volume de apoio, mas todos eles somados não dá o PP”, disse o analista.
O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato do MDB, Henrique Meirelles, ainda não conseguiu atrair apoios. Se de um lado ele representa o maior partido do país, de outro ele sofre com a rejeição à legenda e ao presidente Michel Temer e enfrenta a oposição até mesmo de caciques do partido, como o senador Renan Calheiros (AL).
Em meio a tantas indefinições, outra sigla que vem sendo cortejada por Ciro, Alckmin e também por Meirelles, é o PRB, que tinha um pré-candidato —o empresário Flavio Rocha, que desistiu nesta semana— e agora negocia junto com o blocão.
“Tudo pode acontecer. Não acabou ainda, pelo contrário, só está começando”, resumiu Gennari.
PARTICIPAÇÃO DO LEITOR
Participe desta discussão
Compartilhe sua opinião sobre este assunto. As participações passam por análise editorial antes de qualquer utilização no site.























